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Adaptation [Adaptação]

Atualizado: 22 de Nov de 2018



Escrever sobre um escritor em um bloqueio criativo não é exatamente uma novidade. A literatura universal é repleta de alter egos. Mas uma história que realmente se debruça sobre o ofício de escrever histórias é algo incomum. Saindo-se do núcleo duro da literatura para o mundo marginal e quase invisível roteiro de cinema, então, passa a ser raro como uma orquídea-fantasma.


“Adaptation” (2002) é isso. As camadas de realidade e ficção do filme são mais difíceis de explicar do que de entender. É necessário um ponto de partida.


Mundo real, 1994. O horticultor John Laroche é preso junto com um grupo de nativos americanos tentando roubar um espécime da raríssima orquídea-fantasma de uma área de proteção ambiental. A sua intenção era explorar comercialmente a planta mas a rocambolesca justificativa apresentada às autoridades é de que se trata de uma expressão cultural indígena. A história chama a atenção e ganha a imprensa através de uma matéria da jornalista Susan Orlean na célebre revista The New Yorker. A matéria é expandida, anos depois, no livro “The Orchid Thief” e este tem seus direitos comprados para o cinema. A adaptação fica a cargo de Charlie Kaufman (de “Being John Malcovich” e “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”), provavelmente o mais original dos roteiristas de Hollywood.


O problema é que a história do excêntrico John Laroche em “The Orchid Thief” não sustenta um roteiro. O livro é recheado de longuíssimas divagações e metáforas sobre a obsessão do horticultor pela orquídea-fantasma. Não há um filme.


“Adaptation” não é a história de “The Orchid Thief” mas a hilária saga de um roteirista para adaptar um livro impossível.


Charlie Kaufman faz de si mesmo, com o mesmo nome, o personagem principal às voltas com o enredo do livro, um prazo apertado e sua fobia social, tentando criar uma história genial sem ceder aos apelos dos clichês personificados no irmão gêmeo Donald – imaginário, mas que também assina “Adaptation” (e tem algo mais clichê do que o gêmeo que se revela a mesma pessoa?).


O resultado é, no mínimo, original. Alonga os limites do roteiro ao tratar, exatamente, das possibilidades de um roteiro. Como se isso já não bastasse como recomendação, vale a pena prestigiar um dos poucos papéis interessantes da carreira de Nicolas Cage.


Sai do catálogo da Netflix nos próximos dias. Melhor não deixar para depois.

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