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Bojack... Horseman, of course


No último ano, tendo seguido um regime de quarentena o mais rigoroso que pude, fiquei mais tempo em casa e, muito mais por preguiça do que por não existirem coisas mais necessárias e urgentes para fazer, aumentei consideravelmente os meus conhecimentos e repertório – ainda medíocres, é verdade – sobre as novelas da geração internet, os famosos e infinitos seriados de televisão.


Por amor à polêmica, pensei em dedicar uma postagem neste blog apenas para falar mal das séries que, embora populares, são muito ruins. Mas mudei de ideia. Para não ferir suscetibilidades, não vou dizer que o roteiro de La Casa de Papel é sofrível, que The Good Place chega a ser constrangedora, que Community é pretensiosa e estúpida ou que Ozark é um pastiche tosco de Breaking Bad.


Vou falar de coisa boa, um dos maiores acertos da Netflix em todos os gêneros, a série de animação Bojack Horseman.


O personagem-título é um astro de Hollywood em decadência. Um ator medíocre que conheceu um sucesso estrondoso nos anos 90 como o personagem principal de uma sitcom e que chega à meia-idade como um playboy sem perspectivas na vida além da próxima garrafa de uísque. E ele é um cavalo. Literalmente. E metaforicamente também.


Um mundo em que humanos convivem com animais antropomorfizados é o plano de fundo onde se desenrolam elementos da comédia e do absurdo, mesclando desde trocadilhos ginasianos até ácidas críticas à sociedade contemporânea e à política americana – e acredito que boa parte das referências tenha me passado despercebida.


Até aqui, não parece, em essência, muito diferente da enxurrada de animações adultas que seguiram o sucesso dos Simpsons. Mas há algo mais.


Bojack não deixa, nem por um momento, de ser uma animação. Não é só o personagem com cabeça de cavalo, também as situações que levam o roteiro para frente bebem da fonte das pirações dos desenhos.


Por outro lado, não é o conteúdo “adulto” do tipo South Park, que adolescentes assistem escondidos dos pais. A série realmente ousa na forma de contar a história, com um episódio inteiramente sem diálogos em um fundo do mar de inspiração nipônica (claramente remetendo a Encontros e Desencontros da Sofia Coppola) e outro com um emocionado monólogo de mais de vinte minutos e de final imperdível.


O desenrolar da série mergulha não apenas na personalidade de Bojack, com sua infância problemática e sonhos de juventude destroçados, mas também dos outros quatro personagens principais: Todd Chavez (um amigo que dorme em seu sofá), Princess Carolyn (sua agente), Diane Nguyen (sua ghostwriter) e Mr Peanutbutter (seu amigo/grande rival), todos mostrados, a uma primeira vista, como simples caricaturas, mas revelando uma significativa profundidade.


A série é menos sobre Hollywood, suas frivolidades e máquinas de moer gentes do que aparenta ser. É muito mais sobre crises, perdas, mortalidade, lutos, frustrações. Tudo isso em um processo de degradação pessoal solar à beira de uma piscina paradisíaca. É, enfim, embora eu não lembre de essa palavra ter sido citada uma única vez na série, sobre depressão.


Em uma abordagem mais filosófica e menos patologizante, talvez seja simplesmente sobre existir e seus muitos percalços.


Acredito que essa seja uma chave de interpretação do seriado mais proveitosa do que simplesmente enxergá-lo como a adulação de mais um personagem masculino de comportamento tóxico – o que Bojack, sem dúvida, realmente é.


Sem hesitar, é a melhor série de animação que já vi.


Não que a famosa família amarela não tenha tido seus momentos geniais, mas a maioria deles ficou nos anos 90 e o quadro completo até aqui é, no mínimo, irregular.


Bojack, ao contrário, tem uma constante curva ascendente. Começa morno nas duas primeiras temporadas, mas segue melhorando, melhorando e melhorando. O processo é suave: não há uma grande guinada e a trama é bem amarrada a ponto de um evento absurdo da primeira temporada, um mero punch line de uma piada, poder voltar a ter consequências funestas próximo ao encerramento da história. Os personagens evoluem, cada vez mais nos preocupamos com eles, e o roteiro foge das saídas fáceis e quebra nossas expectativas.


A crescente termina de forma magnífica: a cena final é simples e, de certa forma, anticlimática, mas, na minha opinião – e, repito, não sou grande conhecedor de séries, não me levem tão a sério –, supera até mesmo o anunciado e apoteótico destino de Walter White.


É entretenimento capaz de te divertir enquanto assiste e te fazer sentir melhor – e não mais idiota – depois que acaba. Afinal:


“-- A vida é uma merda e depois você morre, não é?


– À vezes… Às vezes a vida é uma merda e você continua vivendo.”


É preciso sabedoria para aproveitar esse intervalo.




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