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CINEMA NA QUARENTENA – 25 FILMES

Atualizado: Jun 30



Minha rápida análise de 25 filmes que o tempo livre na quarentena me permitiu ver. A maioria está (ou estava) na Netflix. Fiquem tranquilos porque, desta vez, estou evitando os spoilers.

Do pior para o melhor:

Scarface

Nota: 2,0

O icônico Tony Montana (Al Pacino) é um gângster cubano de sotaque questionável e comportamento suicida que tem uma ascensão meteórica no submundo da Flórida, tornando-se um poderoso chefão cheio de pó nas ventas e de gosto estético pavoroso. Não consigo entender de onde veio o status de clássico cult. Não funcionou. A história real do êxodo de Mariel é mais interessante.

El Pepe, uma Vida Suprema

Nota: 2,5

Um diretor de sabe-se-lá-onde aparece em frente às câmeras, sabe-se-lá-por-que, fumando charuto, tomando chimarrão e esperando as traduções do inglês para o espanhol e vice-versa para entrevistar Pepe Mujica em seus últimos dias na presidência do Uruguai. Mujica é uma figura ímpar, merecia um documentário melhor.



O Filme da Minha Vida

Nota: 2,5

Selton Mello tentou criar uma homenagem onírica ao cinema através da vida e das descobertas de um jovem professor de francês abandonado pelo pai. Mirando tão alto, a queda foi desastrosa. A história é extremamente pretensiosa, o protagonista é abobalhado demais e o próprio Selton Mello não abandona o jeitão de professor universitário para interpretar um homem bruto do campo, fica impossível de engolir. Mas dou o braço a torcer: a fotografia é bonita e combina com o tom melancólico do filme.

Gabo, A Criação de Gabriel García Márquez

Nota: 3,5

Mais um personagem real que tem muito mais conteúdo do que o documentário entrega. Ficou a impressão de ser apenas um grande apanhado de informações sem uma linha mestra. Curiosamente, e apesar do título, dá mais destaques aos posicionamentos políticos do escritor do que à sua criação literária.

O Poço

Nota: 4,0 Uma prisão vertical e um elevador de comida que chega cheio aos de cima e mata de fome os de baixo. É óbvia demais a tentativa de metáfora com o capitalismo, ao mesmo tempo em que não funciona: de um lado, não trata de acumulação e, de outro, revela um sistema em que a insuficiência de recursos pouco tem a ver com distribuição, onde, na verdade, os “de baixo” estão fadados a passar fome. Enfim, parece um monte de referências desconexas esperando que cada vá montar um sentido individual. Mas temos outra opinião aqui mesmo no blog.


Cyrano, Mon Amour

Nota: 4,5

Conta a história, romanceada, de como o escritor Edmond Rostand, jovem, casado, pai de dois filhos e cheio de dívidas, escreveu a toque de caixa a peça “Cyrano de Begerac”, que viria a se tornar um dos maiores clássicos do teatro francês. O roteiro sacrifica a realidade em prol do tom humorístico. Às vezes funciona, às vezes não.

Os Caça-Fantasmas

Nota: 5,0

Aqui eu consigo ver claramente todos os elementos que fizeram desse filme dos anos oitenta um clássico cult, mas a verdade é que ele envelheceu muito mal. O roteiro não é exatamente um primor, mas o problema está mesmo em pontos fora da curva como o papel inverossímil (e, em sua maior parte, desnecessário) da Sigourney Weaver. Além disso, ainda que um filme seja uma obra fechada, podendo-se abstrair dele o mundo externo, é impossível não notar que por trás da atitude blasé do Dr. Peter Venkman está a imensa arrogância do Bill Murray.

Assunto de Família

Nota: 5,0

Retrata uma família japonesa pobre, muito próxima da indigência, formada por pessoas que não possuem ligação de sangue e que vivem de pequenos trambiques. O desenvolvimento é interessante, especialmente as relações não muito claras entre os integrantes da família. Era amor, mas também era cilada. O final, pelo que me parece, desandou um pouco. Também acho que me escapou algo do contexto cultural da família no Japão contemporâneo, onde se chega a alugar atores para se passarem por parentes.

O Declínio

Nota: 5,5

No Canadá, um grupo de amadores entusiastas do sobrevivencialismo se reúne em um curso secreto de técnicas avançadas. As coisas desandam porque o tema de preparação para o apocalipse acaba atraindo uns sociopatas (surpresa nenhuma: o escândalo da Cambridge Analytica revelou que a campanha de Trump identificou que seus eleitores eram mais propensos a serem fãs de filmes de zumbi). O resultado é um thriller razoável, e só.

Viver Duas Vezes

Nota: 5,5

Oscar Martínez interpreta um velho professor de matemática diagnosticado com a doença de Alzheimer que resolve deixar de lado a lógica dos números e, com a ajuda da família, tenta reencontrar a sua paixão de adolescência. Sessão da Tarde.

Ícaro

Nota: 6,0

Até agora não entendi completamente a virada que acontece nesse documentário, mais ou menos a partir de sua metade. O diretor é um ciclista amador que mostra o seu próprio processo de doping, copiando Lance Armstrong, para melhorar seus resultados sem ser detectado nos testes. Apesar de evoluir nos treinamentos, não consegue o mesmo sucesso em competições, mas isso não é importante porque a trama inicial se torna secundária e é abandonada. Um dos especialistas que o ajuda é um cientista russo que, lá pelas tantas, acaba por se revelar peça central na gigantesca trama de doping que abalou o esporte mundial e tirou o atletismo russo das Olimpíadas do Rio. O filme gira 180 graus e agora volta a atenção ao cientista que busca asilo nos EUA fugindo de uma conspiração de assassinato possivelmente arquitetada pelo próprio Putin. A narrativa é confusa, mas fica a nota seis porque o diretor tinha contato com a pessoa certa no momento certo da história do esporte, um sujeito que, além de tudo, é uma figuraça.

História Oficial

Nota: 6,0

Filme argentino vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1986. Uma professora despolitizada, casada com um homem influente junto à ditadura militar argentina, vai tomando contato com o nascente movimento das Avós da Praça de Maio e passa a desconfiar que a filha adotada pode ter sido sequestrada pelo regime. Não é um grande filme, mas fica o destaque para a Argentina já estar abordando capítulos espinhosos de sua história recente há quase 40 anos enquanto o Brasil ainda finge que nada aconteceu por aqui na mesma época.

Meu Nome é Dolemite

Nota: 7,0

Eddie Murphy interpreta Rudy Ray Moore, criador do personagem Dolemite, e sua tentativa de concluir seu filme de baixo orçamento. Até então eu nunca tinha ouvido falar, mas Rudy Ray Moore é um ícone da comédia escrachada, e por vezes explícita, com muitas referências a sexo, cafetões e prostitutas, que é um elemento forte da cultura negra americana. Ele está na raiz das piadas do tipo “Sua mãe é tão velha que sai leite em pó das tetas dela”, cena clássica de As Branquelas:



A Terra é Plana

Nota: 7,0

Documentário sobre os pirados que lideram o movimento terraplanista americano. Você começa achando tudo muito ridículo, depois sente pena, depois raiva. Por fim, quando pensa que essas pessoas estão por toda a parte, frequentando restaurantes, dirigindo carros, votando para presidente, bate o desespero. Se essa lista servir de recomendação a alguém, este filme, pela atualidade do tema, merece ser a prioridade.

Indústria Americana

Nota: 7,0

O filme vencedor do Oscar de Melhor Documentário de 2020 mostra uma abandonada fábrica da GM no Cinturão da Ferrugem se transformar em uma fábrica de vidros de uma multinacional chinesa, revitalizando a economia da cidade mas trazendo um conflito insolúvel entre as culturas de trabalho dos dois países. É um microcosmo da interseção das duas maiores economias do mundo que revela muitas perguntas incômodas sobre o futuro da classe trabalhadora.

Cuba e o Cameraman

Nota: 7,0

Um documentário que mostra os últimos quarenta anos da história de Cuba através das espaçadas visitas do diretor americano à ilha, reencontrando sempre os mesmos personagens. São pessoas simples, do povo, com seus problemas do dia a dia e é através delas que vemos as transformações do país, desde quando era a inspiração por grupos de direitos civis americanos no início dos anos 70 até o aumento de acesso à internet após a morte de Fidel, passando pelas crises que se iniciam com o desmonte da União Soviética e as tentativas de reestruturação da economia cubana através do turismo.

O Cidadão Ilustre

Nota: 7,5

Um escritor argentino, vencedor do Nobel e radicado na Europa (o mesmo Oscar Martínez, ator principal de Viver Duas Vezes), surpreende ao aceitar um convite para receber um inexpressivo prêmio de cidadão ilustre da minúscula cidade onde nasceu. A trama é sobre o confronto entre o cosmopolitismo e o provincianismo: o escritor sempre retrata a pequena cidade em suas obras, mas seu olhar não é exatamente positivo; os moradores da cidade têm um misto de orgulho e ressentimento de seu filho célebre. Houve um “boom” de popularidade mundial da literatura latino-americana na segunda metade do século XX e, como resultado, escritores vistos como exóticos na Europa (onde muitos passaram a viver) ao mesmo tempo se afastavam da realidade de suas terras natais, trocando-as por um país idealizado. O filme retrata esse conflito de uma forma moderna e com elementos de supense.

Peixe Grande

Nota: 7,5

Um jornalista retorna para casa para reencontrar o pai muito doente. Revisitando suas histórias extraordinárias e descobrindo o tanto de verdade que havia nelas, o filho acaba fazendo as pazes com o pai. Difícil entender a birra que o filho (o ator é meio fraco, não ajuda) tinha com o pai só por conta de algumas histórias um pouquinho exageradas, mas o ar de fábula segura bem o desenrolar da história.



Você Não Estava Aqui

Nota: 8,0

O diretor Ken Loach mostra mais um drama atual da classe trabalhadora da Inglaterra, agora através de uma família em crise cujo pai cai no canto da sereia do “seja seu próprio chefe” e se vê enredado na precarização dos aplicativos de entrega. Não chega a ser tão angustiante quanto “Eu, Daniel Blake”, mas, assim como “A Terra é Plana” e “Indústria Americana”, mostra, aqui pela lente da ficção, mais um nó górdio dos nossos tempos.

O Hospedeiro

Nota: 8,5

Em 2006, o diretor Bong Joon-ho, que viria a ganhar o Oscar de Melhor Filme por “Parasita” (uma resenha mais completa aqui) em 2020, já tinha apresentado essa louca mistura de comédia, ação, terror, ficção científica e sei lá mais o quê. A poluição faz surgir um monstro no rio Han, em Seul, e a partir dessa premissa se desenvolve o roteiro completamente imprevisível e que usa os clichês do cinema para subvertê-los a todo momento. Para ficar apenas no início do filme, não há aquela clássica construção de tensão com o não visto: o monstro se revela logo em uma das primeiras cenas, tocando o terror na multidão sob um céu claro em uma tarde qualquer. Daí pra frente só melhora.



O Profissional

Nota: 8,5

Um matador de aluguel esquisitão se torna, por acaso, o protetor de uma menininha caçada por um grupo de mafiosos. É, sem dúvida, um filme de ação bem pensado e muito melhor do que a média, mas o grande destaque são os três personagens principais muito bem construídos e com atuações incríveis de Jean Reno, Gary Oldman e Natalie Portman.

Ilha do Medo

Nota: 8,5

Leonardo Di Caprio e Mark Ruffalo são detetives que chegam a um misterioso hospício-prisão em uma ilha para investigar o desaparecimento de uma paciente. É um thriller de mistério muito bem feito que consegue manter até o final o clima de que não apenas há algo abaixo da superfície, como também há uma segunda coisa em um nível mais profundo.

Manchester à Beira-Mar

Nota: 9,0

O personagem de Casey Affleck volta à cidade natal após a morte do irmão para tomar conta do sobrinho adolescente e se vê na necessidade de encarar as razões que o levaram a abandonar o lugar alguns anos antes. O roteiro vai revelando a vida pregressa dos personagens aos poucos, de forma bastante natural, e, quando o espectador se dá conta, também está enredado pelas aflições do protagonista.

Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Nota: 9,5

Um menino na passagem da infância para a adolescência lida com a doença da mãe e as visitas de um assustador homem-árvore que lhe conta histórias com uma moral dúbia. É uma fábula sobre o processo de individuação e a descoberta de si mediada pelos contos de fada. A construção do roteiro é extremamente competente. Segure-se para não chorar.

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

Nota: 10,0

O roteirista Charlie Kaufman, uma das mentes mais criativas de Hollywood (o mesmo de Adaptação), cria uma comédia romântica sobre um homem que se submete a um tratamento para apagar as lembranças de um relacionamento mal sucedido. O drama funciona, inclusive com cenas um tanto perturbadoras, e a comédia não é fruto de cenas do tipo sitcom, mas fica mais por conta do roteiro experimental que não se leva tão a sério. Conta muito bem uma história sem deixar de lembrar o tempo todo que aquilo tudo é só um filme. Genial!

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