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Dos chutes que a gente vai levando


Qual a graça dos esportes? Taí uma pergunta que não é muito fácil de responder. E não estou querendo dizer que os esportes não tenham graça, mas exatamente o contrário: ela é tão evidente que é difícil encontrar uma explicação definitiva. A graça está na estética dos movimentos corporais, na teatralidade catártica das competições, na distração dos problemas do mundo real, no sentimento de pertencimento entre os grupos de torcedores, em tudo isso junto e mais algumas outras coisas misturadas.


Mas não fiquemos em um campo metafísico demais, vamos até a lama. Os motivos pelos quais e eu vocês gostamos de esportes são complexos mas nada falam sobre o a posição gigantesca que o espote tem na sociedade. Por que o mundo dos esportes é tão grande? Porque pode dar dinheiro. E se dá dinheiro, vira negócio.


Explora-se economicamente o esporte através de todas aquelas razões possíveis que nos fazem gostar de esportes: o senso de comunidade nos levar a comprar uma camisa com o escudo de nosso time de coração custando dez vezes mais do que uma camisa do mesmíssimo material mas sem o escudo impresso; queremos comprar os produtos de beleza que os atletas usam porque eles são o exemplo máximo da saúde física; perdemos horas concentrados diante de uma televisão assistindo uma competição esportiva, fazendo da tela um espaço privilegiado para divulgar qualquer marca.


Mas também tem gente que gosta de esportes porque acha que reuniu conhecimentos suficientes para permitir avaliar as principais variáveis em jogo de modo a prever, com alto grau de certeza, quem vai vencer uma partida ou uma competição. Tem gente que gosta de esportes porque acha que é capaz de ganhar dinheiro com isso. E aí está outro nicho de exploração econômica.


Fazendo dinheiro nas apostas dos outros


As apostas esportivas se tornaram muito comuns no Brasil nos últimos anos. A profusão de propagandas de sites de apostas na internet e na televisão me fizerem até cogitar que teria havido uma grande alteração legislativa. As pesquisas que fiz indicam que não, as apostas continuam tão proibidas hoje quanto eram quando nossos avós chutavam bolas de meia em campos de terra. O novo drible são os sites hospedados em outros países, longe do controle da justiça brasileira.


O crescimento das apostas é um fenômeno mundial e muito curioso, especialmente porque as premissas sobre as quais esse universo se assenta carecem de um tantinho de lógica.


A verdade fundamental, e óbvia, é que se perde mais dinheiro do que se ganha. E com isso não quero fazer um discurso moralista contra as apostas, mas estou apontando uma simples realidade matemática.


Se houvesse um sistema mundial de apostas esportivas baseado inteiramente na confiança, nos moldes de um acordo de balcão de botequim universalizado, o jogo seria de soma zero. Um perde, outro ganha. É bastante provável que se formasse uma pequena minoria de especialistas vencendo a maior parte das vezes e uma maioria de não especialistas perdendo a maior parte das vezes. Pensem, por exemplo, em um jornalista esportivo com alguns anos de experiência que acompanha a competição diariamente, conhece todos os atletas e é amigo de alguns deles, apostando contra uma outra pessoa qualquer que trabalha quarenta horas semanais em um emprego que nada tem a ver com o mundo esportivo e que assiste os jogos aos domingos, tomando uma cervejinha e cochilando na metade do segundo tempo. Apesar dessa tendência de desequilíbrio nos ganhos, a soma zero ainda seria insofismável.


Mas não é assim que funciona no mundo real. As apostas normalmente são intermediadas por empresas que ganham parte do montante total apostado, o que diminui o prêmio e torna mais difícil ganhar dinheiro.


Vamos a um exemplo: tomado por um misto de clubismo e loucura, eu resolvo apostar na vitória do Vasco em todos os jogos que o time jogar. Em um cenário de regime de apostas sem intermediários, e desconsiderando a possibilidade de que possam ocorrer empates: se o Vasco perder mais jogos do que ganhar, eu perco dinheiro; se o Vasco vencer a metade dos jogos e perder a outra metade, eu não ganho nem perco dinheiro; se o Vasco vencer mais, eu ganho dinheiro. Tudo muito óbvio.


Agora, em um sistema de apostas com um intermediário: se o Vasco perder mais do que vencer, eu perco dinheiro; se o Vasco vencer metade dos jogos e perder a outra metade, eu necessariamente também perco dinheiro; se o Vasco vencer mais jogos do que perder, ainda assim pode ser que eu perca dinheiro.


Se a participação do intermediário for de 5%, é necessário que a taxa de acertos do apostador seja de 53% para começar a compensar perdas e prejuízos. Só acima disso é que o apostador pode cogitar começar a ter lucro.


Evidentemente, essa simplificação considera apostas de um para um. Quando há mais gente apostando na vitória de um lado do que no outro, o prêmio é ponderado: um prêmio virtual menor para quem aposta no favorito e um prêmio virtual maior para quem aposta no azarão, mas a parte da banca (que é pequena) é descontada da mesma forma e a consequência, no plano mais amplo, é rigorosamente a mesma.


Em resumo, não se trata, aqui, de um jogo de soma zero. No montante geral, perde-se mais do que se ganha.


Para quê otário quer dinheiro?


Para surpresa dos meus leitores, eu tenho que revelar que este não é – ou não é apenas – um texto sobre apostas esportivas e sua matemática intrínseca. É só a partir de agora que as coisas vão ficar mais interessantes: por que diabos as pessoas entrariam em um esquema de circulação de dinheiro em que a tendência matemática é perder?


Existe um transtorno psiquiátrico, chamado ludopatia, que define o vício pelo jogo. Imagino que sites de apostas esportivas se utilizem de mecanismos de estímulo à compulsão já estudados pelas ciências comportamentais. Mas, para além dos casos patológicos, acho que existe uma explicação que tem muito a ver com nosso tempo: as pessoas se sentem especiais.


É razoável imaginar que as pessoas entrem em competições como uma corrida de rua ou um campeonato de xadrez mesmo sabendo que terão resultados medíocres se estiverem animadas por outros valores, como pôr a prova seus limites, conhecer outras pessoas que tenham o mesmo hobby ou se divertir com a atividade em si.


Eu tenho alguma dificuldade de acreditar que alguém sem nenhum distúrbio mental grave se inscreva em um site de apostas dizendo para si mesmo: “vou colocar aqui o meu dinheiro apenas para me divertir vendo-o virar pó ao longo do tempo porque eu sei que sou só mais um otário e que a tendência, no médio ou longo prazo, é de que eu perca tudo”.


Isso não existe. Absolutamente todas as pessoas que participam de sites de apostas esportivas têm a plena convicção de que são mais capazes do que a maioria e de que farão escolhas acertadas em um número de vezes bem maior do que o exigido por aquele gap imposto pela participação da casa de apostas. Em outras palavras, todas as pessoas que apostam acreditam que vão ganhar, mesmo que a lógica do sistema imponha que a maioria, necessariamente, deva perder. É um mecanismo psicológico fabuloso.


A “corrupção”


Para além da ludopatia e da ligação com esquemas de lavagem de dinheiro e com o crime organizado, as apostas no mundo esportivo têm uma capacidade de corromper as bases do próprio esporte.


Não é algo intrinsecamente maléfico das apostas e parece estar mais ligado ao seu descontrole. Há paralelos em outras dimensões do esporte. Por exemplo, as grandes proezas físicas perderiam o encanto em um mundo hipotético em que o doping não fosse fiscalizado: a exploração dos limites do corpo humano não seriam mais associados com a saúde, mas sim com comportamento suicida. Um esporte nesses termos seria bem menos charmoso.


No caso das apostas esportivas, elas impõem a criação de uma rede de regulamentação – ou de compliance, se preferirem um termo em inglês – para evitar a contaminação do esporte.


Se eu apostar toda a minha fortuna em uma vitória do Vasco, pode-se argumentar que isso é problema meu e que não é uma questão esportiva, mas sim psiquiátrica. Mas e se eu prometer parte do prêmio aos jogadores? E se eu mesmo for um jogador? E se eu for o goleiro do Vasco e apostar milhões de reais na vitória do time adversário? Evidentemente esse último exemplo está muito além de uma conduta eticamente aceitável e deve ser proibido.


A existência de um sistema de apostas esportivas impõe que se adote precauções para que os praticantes do esporte atuem apenas em busca da melhor performance esportiva. É uma ideia de pureza até certo ponto ilusória, mas sem ela o resto desmoronaria. Não é raro que se revelem, com escândalo, esquemas de combinações de resultado em razão de apostas esportivas. A punição dos envolvidos serve como um símbolo de que aquele tipo de conduta não é admitido e, assim, mantem-se a imagem do sistema como um todo.


Sou capaz de apostar que há algo errado nessa história


Fazemos apostas – ou especulações sobre o futuro – o tempo todo. Desde escolhas prosaicas de levar ou não guarda-chuva em uma ida na rua até decisões sobre onde alocar o nosso patrimônio. Usar todo o dinheiro que juntei ao longo da vida em um confortável imóvel, ou em ouro, ou na moeda do Marrocos, ou em ações da SpaceX, ou em sucessivas apostas em derrotas do Vasco são opções, a princípio, igualmente legítimas e éticas. As coisas mudam de figura se eu tenho algum grau de controle que permita a manipulação das probabilidades do resultado esperado se concretizar ou não. Por exemplo, sendo técnico do Vasco.


Em fevereiro de 2020, com o dólar batendo recordes e indo a R$ 4,35, o Ministro Paulo Guedes disse que o tempo de dólar a R$ 1,80 tinha chegado ao fim e que o câmbio mais alto era bom para todo mundo. Emendou afirmando que acabou a “festa danada” de empregadas domésticas viajando para a Disney todo o ano.


Empregadas domésticas brasileiras só em casos muito excepcionais conseguiriam juntar dinheiro suficiente para viajar para os Estados Unidos. Não viajam com a cotação atual e não viajavam com o dólar valendo R$ 1,80. Mas interpretar a frase literalmente significa concluir que o Ministro da Economia perdeu todo o contato com a realidade e está alucinando em público.


Mas ele não é esse tipo de doido. A frase foi dirigida a quem, de fato, estava perdendo o privilégio de viajar para a Disney: a classe média. Nas entrelinhas, foi algo do tipo: “Vai ficar mais difícil passear no exterior mas você não vai precisar mais aguentar o desaforo de empregada doméstica que se recusa a dormir no trabalho e que exige tirar férias uma vez por ano para viajar – e de avião! – para visitar parentes no nordeste”. Em outras palavras, foi um: “Você não se confunde com a manada de otários. Você é especial”.


O dólar continuou subindo e, quando escrevo esse texto, já passa de R$ 5,40. Como as commodities são cotadas em dólar, os combustíveis e alimentos ficaram bem mais caros e, em efeito cascata, todo o resto. A classe média já está pensando seriamente em substituir os castelos das princesas de Orlando por uma visita à casa do rei Roberto Carlos em Cacheiro de Itapemirim. As empregadas domésticas substituíram o bife por pés de frango. Os mais marginalizadas catam pelanca e ossos em carcaças para fazer sopa e conseguir se alimentar de algum tipo de proteína. O “todo mundo” de Paulo Guedes não é um conceito que abrange, necessariamente, todo mundo.


Malandro é malandro


Agora, surge o megavazamento dos Pandora Papers. Um grupo de fontes anônimas vazou para um enorme consórcio de jornalistas internacionais milhões de documentos sobre contas mantidas em paraísos fiscais do mundo todo. E assim descobrimos que Paulo Guedes tem aplicados ao menos 9,5 milhões de dólares em uma empresa das Ilhas Virgens Britânicas e que o Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tem outros tantos milhões de dólares no Panamá.


A desvalorização do real frente ao dólar desde 1º de janeiro de 2019 fez com o que os investimentos de Paulo Guedes se valorizassem em fabulosos 14 milhões de reais, um ganho de R$ 14 mil por dia durante mais de mil dias em sequência. Paulo Guedes apostou contra o câmbio do real e se deu muito bem.


No mesmo período, Paulo Guedes era também o super Ministro da Economia (uma pasta que concentrou as atribuições que tradicionalmente eram de outros quatro ministérios em um só) e junto de Roberto Campos Neto era o principal responsável… adivinhem pelo quê?… pela taxa de câmbio do real frente ao dólar. Aquela mesma que explodiu e agora está "boa para todo mundo”.


Quando um time perde por um gol sofrido em um frango desmoralizante do goleiro, haverá torcedores revoltados e sedentos por sangue, mas também haverá outros mais empáticos ao azar do atleta e que só lamentarão pelas imponderabilidades do universo e do futebol.


Mas, se a derrota inesperada render R$ 14 milhões ao goleiro frangueiro que apostou na vitória do adversário não sobraria um único comentário compassivo. É muito improvável que um arqueiro com esse currículo suspeito voltasse a pisar em um gramado e que mesmo um time de várzea confiasse a ele a defesa de suas balizas.


Mas não esperem um tal furor dos meios de comunicação quando se trata de Paulo Guedes e Roberto Campos Neto apostando, e ganhando muito, na derrota do Brasil. Uns poucos pedem a demissão dos dois enquanto a maioria finge que nada está acontecendo e outros tantos já aparecem para dizer que não é crime manter uma fortuna em dólares em um paraíso fiscal. Também é verdade que não é crime apostar no resultado de uma partida em um site legalizado, mas aparentemente o futebol lida com padrões de comportamento ético mais rígidos.


As metáforas esportivas funcionam mas são limitadas. Os dois ministros não são apenas os goleiros da taxa de câmbio no Brasil, são também os técnicos, diretores de futebol e ainda organizam o meio de campo.


Um chute na nossa bunda


Por que a fortuna crescente de Paulo Guedes não nos deixa indignados? Ao que tudo indica, nós - a maioria - somos milhões de inocentes e de mal intencionados que não sabem senão agir individualmente, seguros de que somos especiais e que podemos vencer um jogo que já está armado para que a maioria perca. A maioria, a bem da verdade, são os outros, todos os outros. Nós mesmos somos os diferenciados.


Abandonamos o sonho de sermos artilheiros do time de coração pela ilusão de que já somos traders esportivos geniais. Paulo Guedes não nos enraivece porque ele faz exatamente o que se esperava que ele fizesse, é um craque em ficar rico. Como Ministro do Estado, continua mostrando que é bom de bola e segue enriquecendo no mercado financeiro. Estamos ofuscados pela “luta contra a corrupção”, supervalorizando os tropeços no caminho de um Estado que tenta garantir uma mínima dignidade e cegos para a perversão ínsita a um sistema que permite, dentro da legalidade, a manipulação das regras para transferir riquezas dos pobres para os ricos. Em meio a esses valores, o Paulo Guedes é honesto e o aumento de seu patrimônio só pode despertar admiração ou inveja.


Não há um “lado de fora” do estádio da economia para onde possamos fugir. Estamos todos presos do “lado de dentro”. Uma mudança verdadeira depende de uma compreensão nova e menos individualista de nós mesmos e do papel que cumprimos nesse jogo. E pela quantidade de chutes que levamos de todos os lados, desconfio que sejamos apenas a bola.

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