• Barbosa

FLA MIMIMI


"Eu não vou comemorar"


"Não merecíamos ser campeões"


"Não tem mérito pelo campeonato"


"Sinceramente, não dá para vibrar. Se os deuses do futebol fossem justos não seríamos campeões"


Esses são alguns dos comentários de torcedores do Flamengo que tive que ler e ouvir após a conquista do oitavo título brasileiro na última quinta feira (!). Ouvir essas baboseiras me deixou incrédulo. Cara, seu time acabou de ganhar o campeonato nacional! São 38 jogos contra os melhores times do país e ele foi o melhor de todos! É mais do que isso. O Flamengo conseguiu o segundo título consecutivo. Você sabe o quanto isso é difícil? Nos pontos corridos só o São Paulo e o Cruzeiro alcançaram essa façanha.


O que acontece com a torcida do Flamengo? A gente brigava pra não cair e estavam lá 70/80 mil no estádio, o jogo todo de pé, show dos bandeirões e dos surdos, galera cantando as musicas clássicas, geral girando o manto enquanto entoava "festa na favela". Em 2007? "Ihhhh, libertadores qualquer dia tamo aííííí". O setor norte do Maraca era o reduto da torcida mais vibrante, hoje é de quem paga mais no sócio-torcedor. Mas estou me desviando do assunto. O texto não é pra ser sobre a segregação social dos estádios, mas sobre a "Fla mimimi".


Ouvi esse termo em um vídeo do Mauro Cezar onde ele designa os rubro-negros que não se sentem satisfeitos com o título do Flamengo. Como pode alguém ter um clube do coração e não comemorar a conquista mais importante do futebol nacional? "Ah, mas o time ficou tropeçando nas próprias pernas". Mermão, os outros tropeçaram mais! O Galo perdeu pro Bahia, perdeu pro Fortaleza, perdeu pro Goiás, perdeu pro Vasco e perdeu pro Botafogo. Quais foram as grandes derrotas do Flamengo? Duas pro Ceará e uma pro Atlético-GO?


"Ah, mas o VAR ajudou o Fla". Vamos desenhar, no primeiro jogo entre Inter e Botafogo (2 x 0) o VAR anulou dois gols do Bota, sendo que em um deles voltou o lance alguns minutos até encontrar um "contato faltoso" bastante suspeito do Babi no inicio da jogada. No primeiro Flamengo e Inter (2 x 2) o zagueiro Cuesta corta um cruzamento com a mão dentro da área. O VAR nem revisou o lance. No segundo jogo entre Inter e Bragantino (2 x 1), o arbitro de vídeo deu um pênalti a favor do colorado onde a bola bate no braço de Weverton do Bragantino, sendo que o jogador estava com os braços junto ao corpo. Preciso citar o bizarro áudio do VAR no último jogo entre Inter e Vasco (2 x 0)?


Em um ano atípico como esse a torcida queria um desempenho como o de 2019? Lembram que em Outubro o Flamengo disputou cinco partidas em um intervalo de doze dias? Lembram quando o time teve um surto de covid e foi pra algumas partidas com o time repleto de garotos? Lembram que o treinador abandonou o clube às vésperas do Brasileirão logo após renovar o contrato? Rogério Ceni teve um início muito ruim, e ainda comete alguns erros até hoje, mas até o JJ fez suas lambanças (Bahia, Emelec, Santos).


Enxergo que o Ceni tem um trabalho autoral e coloca em campo um time até mais ofensivo que o de 2019. Se ele conseguir arrumar o sistema defensivo e desenvolver um estilo que incorpore, em algumas situações, Gabigol e Pedro juntos, vai ser considerado um gênio. Vocês notaram que Renato Gaúcho, Diniz e Sampaoli não conseguiram fazer seus times terem bons desempenhos? E que em um ano de exceção quem pratica o intragável futebol reativo (os dois Abel, do Inter e do Palmeiras) acabam performando melhor? A única ressalva é o Cuca que se reinventou e fez o fraco Santos jogar um bom futebol.


O Flamengo de 2019 entrou pra história como um dos maiores esquadrões do futebol brasileiro. Julgar o presente como bom ou ruim baseado nele é loucura. Pessoalmente minha paixão clubística foi moldada a base de campeonatos Cariocas, ídolos irreverentes mas de pouca técnica e uma Copa do Brasil sobre o maior rival. Será que essa torcida esqueceu que ficou 14 anos sem comemorar nada relevante? Eu esperava esse comportamento sem sentido dos millennials, essa geração mal acostumada viu o Fla ganhar 2x Copa do Brasil, 3x Brasileiro, Libertadores e cinco dos últimos dez Cariocas. Mas mesmo entre rubro-negros mais velhos corre essa surpreendente antipatia pelas próprias glórias.


Enfim, pode ser algum fenômeno inerente do futebol moderno experimentado via sofá de casa que não consigo compreender. À esses rubro-negros peço que entendam que metade da paixão pelo futebol está em participar dele no estádio. Pela TV nenhum time sul-americano vai te satisfazer quando seu parâmetro for o futebol europeu.


SRN

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