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Futebol ao sol e à sombra – Eduardo Galeano


(Esta é a resenha de um livro do Uruguai, do desafio UM LIVRO DE CADA PAÍS DO MUNDO).


“As páginas deste livro são dedicadas àqueles meninos que uma vez, há anos, cruzaram comigo em Calella da Costa. Acabavam de jogar uma pelada, e cantavam:

Ganamos, perdimos,

igual nos divertimos.”


Futebol ao sol e à sombra é uma coletânea de pequenos textos cujo tema central é, obviamente, o futebol. Nessa obra Galeano demostra sua paixão e admiração pelo esporte e aos esportistas, apesar de se declarar como um incorrigível perna de pau, no entanto não deixa de exercer suas críticas contra a indústria que comanda o futebol e contra a própria sociedade moderna.


Quanto à estrutura, esse livro é bastante semelhante ao Livro dos Abraços do mesmo autor. Cada texto não tem mais de duas páginas, isso em uma edição de bolso, o que é ótimo para leituras por períodos curtos, como em trajetos de ônibus ou metro. Quanto ao conteúdo, o livro é organizado em ordem cronológica dos eventos, desde o surgimento do futebol até a Copa do Mundo de 1994, mas a edição que li tem ainda apêndices sobre as copas seguintes até a de 2014 que foi realizada aqui no Brasil.


Como um amigo costuma dizer, os autores latino americanos transbordam ternura em seus textos, e essa é uma das principais características dessa obra, mas o humor também está muito presente aqui, bem como a crítica social.


Em um dos textos Galeano conta a história de um psiquiatra que, nos anos 40, organizou um time de futebol com seus pacientes do manicômio, em uma tentativa de exercer uma terapia de socialização.


“Meio século depois, os seres urbanos estamos todos mais ou menos loucos, embora quase todos vivamos, por razões de espaço, fora do manicômio. Desalojados pelos automóveis, encurralados pela violência, condenados ao isolamento, estamos cada vez mais amontoados e cada vez mais sozinhos e temos cada vez menos espaços de encontro e menos tempo para nos encontrarmos.”


Ao criticar o que chamamos elegantemente de profissionalização do futebol, que nada mais é do que a aplicação das leis do mercado e do capitalismo no esporte, Galeano escreve:


“A moral do mercado, que em nosso tempo é a moral do mundo, autoriza todas as chaves do sucesso, mesmo que sejam gazuas. (...) No Mundial de 70, Pelé sofreu marcação do italiano Bertini. Depois, elogiou-o assim:

- Bertini era um artista cometendo faltas sem que o vissem. Metia o punho em minhas costelas ou no estomago, chutava meu tornozelo... Um artista.”


“No Mundial de 86 (...) as principais partidas eram disputadas ao meio-dia, debaixo de um sol que fritava tudo o que tocava. O meio-dia do Mexico, anoitecer da Europa, era o horário que convinha à televisão europeia. O arqueiro alemão, Harald Schumacher, contou o que acontecia:

- Tenho a garganta seca. A grama está como a merda seca: dura, estranha e hostil. O sol cai a pique sobre o estádio e explode sobre nossas cabeças. Não projetamos sombras. Dizem que isto é bom para a televisão.”


Mais adiante, ao criticar o pragmatismo do futebol europeu, considerado “moderno” e imposto a todos os cantos do planeta Galeano diz:


“Os jogadores têm uma conduta exemplar. Não fumam, não bebem, não jogam. (...) Os artistas deram lugar aos levantadores de peso e aos corredores olímpicos, que ao passar chutavam uma bola ou um adversário.”


Em Futebol ao Sol e à Sombra não tem aqueles característicos textos de adulação aos torcedores, como se esses fossem a razão de existir do jogo. Ora, para que o futebol aconteça basta a bola e uma pessoa, todo o resto são apêndices. Por outro lado, Eduardo Galeano faz questão de exaltar os verdadeiros heróis desse esporte, os jogadores. Meazza, Leonidas, Pedernera, Barbosa, Cruyff, Maradonna, só para ficar entre alguns. Mas uma que merece menção especial é a célebre história de Obdulio Varela, capitão Uruguaio na copa de 50.


“No final daquela jornada, os jornalistas acossaram o herói. E ele não bateu no peito proclamando “somos os melhores e não há quem possa com a garra nacional:

- Foi casualidade – murmurou Obdulio, abanando a cabeça.

Passou aquela noite bebendo cerveja, de bar em bar, abraçado aos vencidos, nos balcões do Rio de Janeiro.“

(“Futebol ao Sol e à Sombra”. Autor: Eduardo Galeano. Editora: L&PM. 256 páginas. Edição de 2019)

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