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Jacó Leão, o Santo Eremita [conto]


Pousou a caneca na mesa, levantou-se e foi embora para sempre. Estávamos silenciosos em deferência ao anjo invisível que entrara pela janela. Mas a algazarra da taverna ainda estava registrada nos sorrisos, que iam morrendo, um a um, conforme Jacó Leão se aproximava da porta com passos de quem nunca mais volta. Um de nós, não lembro quem, tentou argumentar qualquer coisa, mas Leão foi inflexível.


– Ora, meus amigos, não há razão para queixas. Às vezes é preciso pôr um ponto final. Mas não se esqueçam completamente de mim: Rolando saberá me encontrar se for preciso – riu e avançou para a porta, mas antes de sair nos lançou um olhar de desculpas: – Cansei disto. É só.


Rolando era o pombo-correio que nos servira desde a infância. Mas isso fora antes do advento das mensagens instantâneas que aposentaram quase todas as aves do serviço postal. Além disso, naquela época Rolando já era um pássaro velho e meio mouco, todos sabíamos que enfrentava problemas com a bebida. Não era uma ave confiável. Tudo não passava de um último gracejo do homem que partia para não ser encontrado.


Rumores surgiram nas semanas seguintes: Leão fora visto andando sobre as águas do litoral de Cabo Frio, ou multiplicando pães e peixes na Baixada Fluminense, ou transformando água em vinho em Realengo, ou curando os leprosos na Região Serrana, ou ensinando aos doutores do Hospital Universitário, ou jejuando quarenta dias em Jacarepaguá. Seguíamos qualquer notícia, mas tudo era em vão.


A sua ausência nos transtornava. Tentamos seguir os rastros de seu caminho, desvendar seus motivos. Sentíamo-nos humilhados por ficar. Nossa inquietação tornou-se boato, fábula, lenda, fé e, sem que notássemos, religião. Fui eu, carpinteiro, o primeiro a esculpir um oratório tosco em homenagem ao santo ermitão.


Logo eram dezenas, centenas, milhares de pares de joelhos lacerados no chão pedregoso em frente ao altar improvisado. O sussurro das preces se espalhava e fez-se ouvir muito além dos limites de nossa aldeia. Não tardaram a nos bater na porta de casa inesperados sacerdotes, monges e construtores de catedrais. Os mestres da escolástica vieram com seus diplomas doutorais para pôr ordem nos ritos e transformar em dogma nossas veleidades de bêbados.


Eu e meus companheiros de copo passamos a ser tratados como testemunhas da iluminação de Jacó Leão ou, como muito nos agradava, simplesmente profetas. Havia também quem nos quisesse chamar de santos, mas, humildemente, sempre recusamos o exagero dos fiéis:


– Apenas Leão é santo. Perto deles, somos preguiçosos gatos angorás.


Nos salões dos templos recém-erguidos, fomos interrogados sobre todos os detalhes da vida de Leão, em especial o momento em que abandonou o convívio dos homens, naquele início de noite na velha taverna. Os doutos esquadrinhavam cada detalhe para conformar o dogma, esforço intelectual que mal podíamos acompanhar.


De nosso testemunho lavrou-se um livro apócrifo que narrava os pormenores da vida e iluminação de Jacó Leão. As divergências de nossos depoimentos foram aparadas quase à perfeição no texto final e era como se jamais tivessem existido. Na qualidade de profetas fomos presenteados com ouro, prata e mulheres, ganhamos um alto cargo na hierarquia, uma gorda prebenda e um voto de silêncio eterno quanto a assuntos teológicos.


Revelou-se pouco depois que um único livro não bastava para os doutores da fé. A partir do cânone, surgiam interpretações muito distintas, cada qual com suas conclusões, conselhos e mandamentos.


O cisma se formou e ameaçava a unidade da igreja. Nós, os profetas, já então vestidos de ouro e seda, habituados aos modos palacianos, desacostumados com trabalho braçal, esquecidos das melhores palavras para nos desculparmos com as mulheres e filhos abandonados há tanto tempo, víamos com terror a possibilidade de voltarmos a ser plebeus.


Da forma mais dissimulada possível, sem saber se descumpríamos o teor das proibições impostas, aconselhamos aos ouvidos certos a realização de grandes debates dogmáticos, unificando a fé, trazendo os cismáticos de volta ao seio da comunidade e preservando a estrutura sagrada da igreja que nos sustentava.


E assim foi feito. Podia-se respirar a democracia nos Tribunais da Fé, sempre cheios em acalorados debates hermenêuticos. Os mestres da retórica digladiavam-se e, quando o consenso não surgia naturalmente daqueles embates, as corretas e definitivas interpretações da fé eram votadas em escrutínio secreto.


“Igreja unida, Leão falou pela voz da maioria”, a máxima, que chegou a ser popular naquele tempo, repetida, modificada e transformada até em bordão de personagem de novela, foi, sem falsa modéstia, inventada por mim. Passei dias elaborando o dístico que, na Grande Celebração da União, acompanharia o meu gesto de levar a chama ao facho de lenha da imensa fogueira onde foram queimadas as obras definitivamente taxadas de heréticas e, junto delas, seus autores.


Xenofonte Garcia, irmão caçula do Sumo Sacerdote Aristóteles, foi o único a escapar da incineração, mesmo sendo considerado por quase todos um debochado descrente da fé leonina. Seus livros de orações, ainda hoje vendidos em qualquer banca de jornal de aldeia, são repletos de mensagens heréticas subliminares e rimas pornográficas escondidas em acrônimos.


Aristóteles, quando ainda não havia escolhido esse nome sacerdotal, era atendente de balcão na bodega de onde Jacó Leão saiu para nunca mais voltar. Nos primórdios da fé, agiu de todas as formas possíveis para também ser considerado um dos profetas, o que só não conseguiu por nossa rejeição enfática e movida por vingança pelas apostas em jogo de purrinha que ele vencia sorrateiramente depois de nos embebedar.


Despreparados para a fina capacidade de manipulação adquirida entre garrafas de vinho e doses de pinga, o colégio de cardeais deixou-se conduzir e alçou Aristóteles ao posto máximo da hierarquia da igreja, de onde pôde poupar a vida do irmão, agindo em vista apenas dos próprios interesses mesquinhos, pouco preocupado com o caráter sagrado e eterno da instituição que conduzia.


E foi exatamente a partir da heresia de Xenofonte, injustamente poupado das fogueiras, que ressurgiu a dúvida e o ateísmo. Alguns grupos eram pacíficos mas boatos diziam que outros se mobilizavam para importar fuzis. A unidade, sacralidade e higidez financeira da igreja viu-se novamente ameaçada, situação de onde nunca mais pôde sair.


Vários círculos da alta sociedade, que agora frequentávamos com naturalidade, duvidavam abertamente da divindade de Jacó Leão. Surgiam hipóteses de que ele estaria escondido em algum lugar, vivendo dos benefícios da fama obtida. Os de maior desassombro chegavam a nos questionar nossa qualidade de profetas e apontar uma suposta falha em nunca ter usado Rolando para buscar Leão, como ele próprio havia recomendado, pormenor que deveria ter sido melhor urdido no assentamento das escrituras.


Em nosso almoço de final de ano, decidimos enviar Rolando em uma última tentativa, desesperançosa, de encontrar Jacó Leão onde quer que ele pudesse estar. A missão dada à pobre ave, surpreendentemente ainda viva em uma gaiola de repouso, ganhava ares de suicídio, mas fui voto vencido.


Após quase duas semanas sem notícias de Rolando, e depois de já termos encomendado sua alma a Jacó Leão, ele veio se chocar com força contra minha porta de vidro temperado enquanto eu me divertia na piscina de casa com uma das mais ardentes fiéis leoninas. Assim que me recuperei do susto, chamei os outros com urgência e tratei de aplicar o pouco que sabia de primeiros socorros de pássaros.


Dormindo sobre o meu travesseiro de penas, Rolando balbuciava ofensas contra os guardas de trânsito exalando um forte hálito de bebida. Quando a melhor ideia já nos parecia chamar socorro especializado -- que nessas circunstâncias tinha como solução humanitária a aplicação da eutanásia --, Rolando levantou-se de um rompante, com os olhos embotados e pedindo um trago.


-- Agora, não, velho Rolando. Lembre-se de sua missão, amigo: encontrar Jacó Leão e voltar para nos dizer onde e como ele está.


-- Gordo… meio careca… Morando em Madureira. Foi embora naquele dia porque a mulher dele não gosta de vocês mas ele ficou com vergonha de dizer. Agora me dá uma cerveja!


Enquanto bebia mais um pouco, Rolando continuou a contar sua história: Jacó Leão vivia em uma casa simples e tinha um altar de si próprio junto à porta. Era um fiel leonino e jamais identificou seus próprios traços nas imagens que eu talhei e tampouco sua história nas escrituras. Mandava-nos boas lembranças.


Mal Rolando terminou de falar e notei que todos nós chorávamos. Nosso querido pássaro estava em um estado lastimável, muito velho, doente e, agora, um mentiroso compulsivo. Não podíamos deixá-lo voltar ao asilo. Imbuídos de todos os valores que a fé tinha nos proporcionado, pegamos o velho Rolando nos braços e o assamos na churrasqueira. A cerveja fez daquela carne a mais tenra que já experimentamos.


A história por trás do conto:


Em uma tarde normal, de um dia normal, de uma época normal, sem nada que o permitisse antever, um certo amigo, com mais talento do que juízo dentro da cachola, vem ao nosso grupo virtual despedir-se para todo o sempre apenas porque estava cansado daquele site (dos seus algoritmos, das suas funcionalidades ou do conjunto de cores, vá saber...).


Advertido de que aquele era nosso único meio de contato à época e que abandoná-lo significaria o fim irremediável de nossa amizade, ele apenas redarguiu que sempre existiriam telegramas ou sinais de fumaça e não se sentiu constrangido em sumir. Deixou-nos perplexos, indagando se ele havia alcançado uma espécie de iluminação mística, se enforcado em algum lugar ou apenas se amigado com uma mulher que não gostava de nós.


Nessa mesma época, ele continuava a frequentar outros fóruns on-line disfarçado sob a imagem de um leão, inclusive participando de um concurso de contos sob pseudônimos cujo tema era "cartas de tarot".


Quando descobri, apressei-me em tirar a carta do eremita e preparar um texto para surpreendê-lo com uma versão um pouco romanceada de sua própria história, usada apenas como pretexto para dirigir-lhe uma ofensa cifrada em poucas palavras.


Uma versão do conto saiu mas a revisão ficou para depois. E, então, o prazo do concurso se esgotou. E o conto foi para uma gaveta virtual. E eu mesmo saí do grupo. E vieram novas tecnologias e melhores formas de manter o papo em dia. E ele reapareceu. E etc...


Eis que ele resolve dar uma cara nova ao velho blog. Nada mais apropriado do que trazer à luz esse velho continho, agora como uma singela homenagem.

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