• Leandro Barreiros

Lágrimas e tinta (rascunho)

2020 foi um ano estranho.


E difícil.


2021 traz promessas de esperança e superação. Mas até que qualquer coisa se concretize, "promessas", "esperança" e "superação" são apenas palavras e palavras são carregadas pelo vento.


Por isso, ressalto que sabemos a importância das certezas, especialmente em um mundo doente, sombrio e, talvez ainda mais assustador, governado pelo Bolsonaro. Dentre as poucas certezas que restam no mundo, podemos sorrir ao lembrar de duas inequívocas: terças e quintas são dias de post no magruganalapa.


Se alguém disser que um dia não foi assim, neste mundo pós-moderno, lembrar-lhes-ei de que essa é a minha verdade e, se alguém quiser negá-la, azar de quem não acredita no relativismo absolutamente tosco.


Outrora mencionei que gosto de escrever e talvez tenha falado que geralmente penso em uma cena, ou num diálogo, que pode ser o início, meio ou fim de uma história e então preencho os espaços vazios da narrativa, com esperança de que sejam minimamente coerentes e interessantes. Algumas vezes da certo, outras, nem tanto.


A última cena que ficou na minha cabeça é a de baixo. Quiçá um dia vire alguma coisa mais acabada:


Lágrimas e tinta



O pistoleiro fitou o poeta. O homem, magro como uma lagartixa faminta, tinha na boca um cigarro de palha e, no rosto, a mesma expressão desinteressada de sempre.



Wallace carregava o coldre na cintura e o livro em uma das mãos. Alejandro reconheceu a capa amarelada. Sabia que no verso do tomo havia a foto de um homem negro com um sorriso incabulado. Seu retrato.



-Nunca entendi o que as pessoas tanto gostam nessas suas poesias infantis.



O homem negro sabia.



-Não escrevo com tinta, senhor. Escrevo com lágrimas. E acaba que todo mundo que é humano se encontra nas palavras, porque é gente e toda gente que é gente já chorou.



O pistoleiro ofereceu um sorriso de escárnio.



-Pois acho uma merda superficial e pretensiosa.



O poeta deu de ombros, lançando no ar a fumaça que há pouco estivera em seus pulmões.



-Eu disse que os humanos encontram a si mesmos, bom senhor. Não os porcos filhos da puta.


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