• Leandro Barreiros

LIVRARTE


Ramon folheou o livro verde sem muito interesse nas páginas. Era um hábito que havia adquirido nos últimos meses daquele outono, quando tinha percebido a futilidade que era frequentar o colégio. Não importava o problema que passava, folhear as primeiras páginas de um livro aleatório era o convite para entrar em uma nova realidade, longe dos problemas cotidianos, fossem as contradições do mundo a sua volta, ou o tumor da mãe.


Fazia quase um semestre desde que detinha aquela nova vida. Acordava pela manhã, se aprontava, agradecia à mãe pelo café, dava um beijo nas bochechas dela e do pai e ia até o ponto de ônibus. Lá, pegava o 352 como se fosse para a escola, mas saltava cinco quadras depois, andava até o metrô e seguia para a Cinelândia, onde encontrara uma bela livraria na esquina da Senador Dantas. As vitrines da loja mostravam um interior aconchegante, dividido em dois andares, com um conteúdo indizivelmente mais vasto do que a biblioteca escolar. Em um tom escarlate escrito na vertical da porta, a palavra LIVRARTE nomeava a loja.


Costumava passar ali as manhãs, se acomodando em algum sofá escuro para ler qualquer história que lhe despertasse a curiosidade. Quando tinha dinheiro, comprava uma ou duas edições que lhe tivessem agradado. Quando não tinha e se sentia particularmente audacioso, levava as obras do mesmo jeito. Ás quartas e quintas via sempre uma bela menina passeando nos corredores infanto-juvenis, geralmente segurando com delicadeza um volume de Jogos Vorazes, ou alguma coisa do tipo. Quando sentava para ler, não demorava em apertar as próprias têmporas, como se a vista não aguentasse a leitura por muito tempo. Tinha belas maçãs no rosto e os olhos eram de um azul tranquilo. Mas, não fossem os grandes e arredondados seios, é bem provável que ela não tivesse despertado sua atenção. Ou, ao menos, teria levado mais tempo para percebê-la.


À tarde, costumava ir ao cinema da Cinelândia, onde assistia a uma ou duas sessões. No início, Ramon assistia aos grandes lançamentos de ação, mas ao longo dos meses percebeu que todos eram, de certa maneira, a mesma coisa. Homens que se viam no meio de um problema e aprendiam a mexer em uma arma em poucos segundos, vilões que nunca acertavam um tiro, mocinhas em perigo, um final feliz... Com o tempo, se habituou a assistir filmes independentes, não por compreender mensagens mais profundas neste gênero, mas justamente por não entendê-los sempre. Podia, ao menos, se perguntar do que se tratavam, sem as certezas rasas e reconfortantes de Hollywood. Pouco antes das ruas serem tomadas por milhares de carros e os ônibus invadidos por milhões de pessoas, Ramon voltava para a casa e se preparava para o dia seguinte.


Não levou muito tempo para que seu gosto literário também se transformasse. De início, buscava os best-sellers que cobriam as vitrines. Depois, por volta do terceiro mês, percebeu que, como os filmes de ação, as obras eram todas iguais: mocinhas virginais, vilões maléficos, adolescentes heróis, volúpia sem sexo... Naquelas semanas parecia que a livraria havia se tornado tão fútil quanto a escola. Mesmo assim, preferia a poltrona escura e macia da loja à cadeira dura da sala de aula.


Foi quando começou a ler autores como Bolaño, Márquez, Cortázar, Galeano e Assis.

Havia descoberto a literatura latina por ignorância e acaso. Em um dos dias em que estava sem dinheiro, avistou um livro com o nome de Roberto Bolaño destacado e se perguntou o que o autor de Chaves poderia colocar no papel. Precisou de pelo menos mais dois livros até perceber o mal entendido. Foi do Chile para o México, de lá para a Argentina e então para o Uruguai, até voltar ao Brasil. Os autores latinos causavam um incômodo parecido com os filmes independentes.


Aprendeu mais ali do que jamais aprenderia no colégio. Decifrou as veias abertas da América Latina e viveu as ditaduras americanas e as lutas por independência.


No sétimo mês já conhecia algumas pessoas da loja, embora nem sempre lembrasse o nome de todos. A partir daí, ficou incomodado em roubar os livros, ainda que o fizesse de vez em quando. Havia abandonado de vez todos os romances, pois descobrira serem eles os alvos da cultura popular. Naquela época, se interessava apenas por contos e poesias. Os próprios leitores de romances (especialmente os de grandes sagas) começavam a lhe incomodar, simplesmente por não darem atenção aos contistas. Se os leitores fossem sensatos, dariam mais atenção às histórias do que ao mercado. Agora que você terminou este livro, deve comprar o próximo, pois a história continua. E então o outro. E o outro. Pessoas como a menina loira (que insistia em frequentar o lugar tão regularmente quanto ele, escolhendo uma obra da vitrine e apertando as têmporas) estavam apenas assistindo televisão em letras. Não eram leitores. Eram espectadores.


No oitavo mês sua mãe morreu.


Ramon não era idiota. Sabia o que estava por vir desde o início. O tumor no cérebro era maligno. Sua mãe não estava respondendo bem à quimioterapia. Às vezes, quando lia de madrugada, escutava o pai indo chorar baixinho na sala. Agora, ele chorava baixo no quarto, sozinho.


Levou um mês para voltar à livraria. Voltou numa terça-feira, mas ficou apenas sentado no sofá. Na quarta-feira a menina loira não apareceu. Na quinta, ele se descobriu lendo Edgard Alan Poe. Fazia tempo que não lia um estadunidense. Pelo menos não era um romance. Está tudo bem?, A voz era suave e gentil. Quando abaixou o livro, primeiro viu os seios, depois a pessoa. Era a primeira vez que a menina lhe dirigia a palavra. Ora, até onde sabia era a primeira vez que a menina olhava para ele. O que?, ele perguntou surpreso. Você está bem?, ela repetiu. Por que está perguntando? Os olhos dela mostraram confusão e, por um instante, Ramon pensou que olhava para um espelho que exibia a sua própria surpresa. Porque você está chorando.


Ele levou a mão até o rosto e encontrou as lágrimas. Não havia percebido quando começaram. Provavelmente em meio ao corvo. Talvez no segundo ou terceiro “nunca mais”. Ele enxugou o rosto e, ao invés de falar que tudo estava bem, contou sobre a mãe.


A menina sentou no sofá próximo e deu seus sentimentos. Tudo bem, ele respondeu. A gente já esperava. Foi por isso que você sumiu, né? Sumi? Daqui, você parou de vir. Sim, eu tinha que resolver certas coisas. Ajudar meu pai. E como ele está? Está indo. E indo foi a conversa. A princípio, Ramon sentiu que estava usando a morte da mãe para se aproximar de Lilian (descobriu o nome dela naquela tarde), mas a culpa desapareceu em poucas semanas. E, quando dormiram juntos pela primeira vez em um motel próximo à livraria, Ramon estava em paz com a ausência da mãe.


Diferente dele, Lilian tinha gostos mais convencionais. Lia tão vorazmente quanto, mas ficava muito mais apegada aos best-sellers do que ele poderia aprovar. Já havia lido as sagas de Crepúsculo, Peter Jackson, Jogos Vorazes, Gossip Girl, O diário da princesa, Harry Potter e outros nomes que já não entravam em sua cabeça.


Ela estudava a tarde em um colégio da Glória cuja biblioteca estava em um processo de reforma infinito. Conhecia a livraria desde o ano anterior, e reservava pelo menos dois dias da semana para visitá-la. Como Ramon já havia visto, comprava os lançamentos populares quando tinha dinheiro. Na maior parte do tempo, lia os livros na loja. A avó havia fugido da Alemanha nazista e sonhava em morar no país de origem com a família, por isso Lilian estudava alemão em um curso particular no Flamengo. Já havia publicado algumas fanfics, que para a surpresa de Ramon pareciam melhores do que as obras nas quais se baseavam.


Lilian adquiriu o hábito de faltar as aulas de quarta-feira para acompanhar Ramon no cinema. Não acreditava que ele havia simplesmente decidido não ir mais ao colégio. Mais estranho do que isso, que desistira do colégio para se dedicar a ler livros. Nunca tinha escutado história do tipo. Passou a faltar uma vez na semana para se sentir um pouco mais como ele. E gostou.


O primeiro filme que assistiram se chamava “Laços”. A história dizia respeito a dois primos franceses que descobriam estar apaixonados um pelo outro. A família, claro, não entendia a relação, assim como o resto da sociedade parisiense. No fim, ambos prometiam cometer suicídio. A menina foi a primeira, cortando os pulsos na banheira de casa. O rapaz, Jaques alguma coisa, desistia do ato. E assim acabava. Vou escolher o próximo, ela se limitou a dizer no fim. Escolheu “Batman: o cavaleiro das trevas” e, embora ele nunca admitisse, Lilian o viu balançando excitado na cadeira quando o justiceiro mascarado defrontava-se com o palhaço do crime.


Estavam na cama quando decidiu perguntar-lhe sobre os livros. Naquela altura, já não sabia quantas vezes tinham dormido juntos. Ele rolou para fora dos lençóis e acendeu um Marlboro vermelho, como sempre fazia quando terminavam de transar. O décimo primeiro livro da série true blood escapava da bolsa dela, se projetando na cabeceira. Ela se ajeitou na cama, sentou-se, apoiando as costas no espelho, as pernas cobertas e os enormes seios à mostra. Fala, ordenou. O que? Você está com a cara que faz quando quer falar alguma coisa, mas fica constrangido. Eu não faço cara nenhuma, respondeu. Então você não quer perguntar nada? Ele tragou o cigarro, contrariado. Quero. Então fala. Como você consegue ler todos esses livros? Quero dizer, são todos a mesma coisa. Você já leu todos esses livros?, ela questionou. Não. Então como sabe que são todos a mesma coisa? Já li alguns. Alguns não são todos. São clichê atrás de clichê. Você sempre fuma um Marlboro depois que transamos e quer falar de clichê?, ela perguntou com um sorriso. Não precisa ficar chateada. Não é porque estou discordando de você que eu estou chateada. Mas eles não são iguais. Parecem, mas não são. Existem sutilezas. Existe sutileza naquele livro?, ele perguntou sem esconder a ironia. Existe para quem se dispõe a encontrar, ela respondeu com a serenidade de sempre. Às vezes uma história só precisa ser uma história, ela disse por fim. E a isso ele não soube responder. Por isso terminou seu cigarro em silêncio, voltou para a cama e fez amor com ela novamente.


Com a paciência de um homem apaixonado voltou a ler romances. Mais do que isso, voltou a ler grandes sagas. Seus meses seguintes foram dedicados a Rowlings e Kings, Martins e Koontzes. Havia personalidades magistralmente construídas e histórias com narrativas graciosas. Havia também preciosismo e linguagem informal, personagens planos e histórias previsíveis. No fim, eram apenas isso, histórias, algumas boas, outras más, como os seus queridos contistas também escreviam por vezes.


De aniversário, Lilian lhe comprou o encadernado do “Cavaleiro das trevas”, de Frank Miller. O que ele acabou realmente gostando. Alguns meses depois, foi a sua vez de presenteá-la. Decidiu arriscar no certo, comprando o último livro das crônicas de gelo e fogo, pedaço que sabia faltar em sua coleção.


Fazia dois anos desde que havia passado a frequentar a livraria. Um ano e três meses desde que conversara com Lilian pela primeira vez. A Livrarte estava prestes a fechar as portas para dar lugar a um novo Mc Donalds. Lilian estava prestes a se mudar para São Paulo para receber tratamento especializado. Finalmente havia ido ao médico para averiguar as dores de cabeça cada vez mais fortes. O exame tinha chegado no início daquela semana. Choraram juntos no motel. Ramon praguejou contra o universo. Odiou deus. Odiou o acaso. Ela o acalmou com palavras gentis. Naquela noite, prometeram não perder contato. Pela primeira vez, não fizeram amor antes de dormirem juntos.


Dois meses depois Ramon não teve mais notícias de Lilian. As mensagens pararam abruptamente. Discou inúmeras vezes para seu celular, mas uma voz insistia em lhe avisar que o aparelho estava fora da área de cobertura ou desligado. Nenhum dos dois possuía qualquer rede social ou amigos em comum. Mas ele tinha o endereço da casa em que ela estava ficando com alguns parentes.


A biblioteca que montara ao longo dos anos era respeitável. Vendeu os livros que pôde nos sebos e agradeceu pelos títulos populares que havia comprado (diferente do que esperava, foram os que lhe renderam mais dinheiro). Comprou uma passagem de ida para São Paulo. Lá, decidiria quando e se iria retornar.


No dia de sua viagem, beijou o pai, abraçou-o com força e pediu que um táxi lhe deixasse no aeroporto. No meio do caminho, mudou de ideia e fez com que o carro voltasse pela Avenida Brasil até alcançar o centro. Entregou setenta reais ao taxista e saltou na Cinelândia, onde procurou pela esquina da Senador Dantas. Ainda tinha tempo.


O nome da loja havia desaparecido da porta, bem como as vitrines que foram bloqueadas por placas de madeira. Como não poderia deixar de ser, a porta estava trancada. Mas a madrugada era silenciosa e escura. Ele forçou uma das placas de madeira que, depois de um considerável esforço, se desprendeu. O vidro atrás dela já estava quebrado.

Ramon saltou para dentro da antiga loja e tateou as paredes até encontrar um interruptor. Ele olhou em volta e acendeu um cigarro, tragando com força. Se tivesse total consciência de si, saberia que as mãos tremiam. Ele tinha certeza que encontraria estantes empoeiradas e livros empilhados. Caixas e mais caixas, reboco e poeira. Um livro verde que lhe acalmasse os nervos depois de folheado. Ele tinha certeza, mas não havia nada. Não havia mais nada.


Fim.

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