• Leandro Barreiros

Microcontos e rascunhos

É notório que quinta-feira é dia obrigatório de postagem no madruganalapa. Publicar semanalmente exige criatividade, profissionalismo e, principalmente, disciplina. Infelizmente não possuo nada disso, então passei o dia me perguntando como trapacear.


Enquanto estava navegando nos arquivos do computador, esbarrei com uns microcontos que há um tempo tentava escrever diariamente para melhorar um pouco a prática. Infelizmente isso durou pouco. O lance da disciplina.


Também achei o primeiro conto que terminei. Tem uma história sobre como decidi parar de escrever depois dele por conta das críticas não muito positivas. Pudera. Era sobre meninas na Irlana, um Leprechaum e um pote de ouro. E era de terror! Assuntos abra outro dia (quiçá sem trapaça semana que vem).


Por hoje, deixo aqui meus textículos. Não sei exatamente o ano do último, mas foi feito quando a passagem de ônibus custava R$2,40 no Rio de Janeiro. Uma verdadeira história de "Era uma Vez".


Apropriação indébita











Cruzaram caminho por acaso. O cigano, com um envelope na mão. O outro, com um estilete. Me passa a porra toda, ou te encho de furo. O cigano mal percebeu a confusão. Já estou morto, confessou roco, apertando o envelope. Mas ele não tinha paciência para gracinha. E, se o velho estava morto, matou-o de novo, carregando tudo para si. Oito meses depois, morreu por conta de um câncer na garganta.



Precisamos da dor

O psiquiatra receitou Prozac. O terapeuta recomendou que escrevesse sobre o trauma. O padre, orações. Começou pelo conselho do sacerdote, mas Deus não aquietou sua alma.

Deveria saber. O algoz não poderia ser o salvador.

Então escreveu, dia após dia. Escreveu sobre a inércia na cama, sobre o berço frio; a quantidade de garrafas que o marido passou a consumir; a falta de apetite; a incapacidade de desmontar o quarto. Mas, no fim, escrevia apenas que queria morrer.

Passou para as pílulas. Finalmente, uma noite o Prozac fez com que se sentisse bem. Jamais se odiou tanto.



Ponto Final



Fiz sinal para o ônibus.


Dentre os caminhos que tomaria, estava escrito em letras minúsculas ”central”, pouco acima de “Presidente Vargas”.


Não reconheci o número, mas estava realmente cansado de esperar. O trabalho foi mais exaustivo do que o normal, e uma noite de sono faria bem.


O motorista era um tipo estranho. Careca, branco e com olheiras maiores do que as minhas. Perguntei se o ônibus passava na central, comentando que nunca havia visto aquela linha. Ele abanou a cabeça.


-É uma linha especial. Ela cruza por esse lugar com raridade.


Paguei os 2,20 com moedas que tinha no bolso. Não havia cobrador.


Pouca gente no veículo. Era estranho naquele horário um ônibus passar vazio. Agradeci pela sorte e me recostei em um banco.


Não demorei a dormir. Acordei algumas vezes, lutando contra a confortável vibração do transporte. No fim, caí em sono profundo.


-Ponto final, garoto –gritou o motorista, me fazendo acordar.


Desci do veículo irritado por ter perdido o ponto. Mal sabia quão distante de casa estava. O ônibus arrancou para mais alguma volta.


O terreno rochoso me chamou a atenção. Não vi casas, pessoas ou outros veículos. Apenas pedras e mais pedras. Sem estradas. Sem postes. Sem nada.


Um zumbido estranho despencou do alto. Ignorei a princípio, acreditando ser um avião. Afinal, não poderia estar tão longe do aeroporto. Por fim, olhei para cima. Não era um avião, embora tivesse o tamanho de um.


Pude apenas cair no chão enquanto admirava o enorme pássaro em chamas atravessar o céu sem lua ou estrelas.

Enquanto a parca iluminação bruxuleava perante a ave de fogo, ouvi um guincho vindo do horizonte sombrio e distante.


Fiquei sentado, esfregando as mãos enquanto pensava que tipo de camundongos habitariam esse lugar.


Então, sabia que só havia uma pergunta mais importante.


Quando passaria outro ônibus?

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