• Leandro Barreiros

O último desejo (1º Livro da Saga "The Witcher")

Atualizado: Mai 3


Recentemente a Netflix escalou o Superman em uma adaptação dos livros de “The Witcher”. Até pouco tempo, eu não fazia ideia de que os famosos jogos de RPG de ação eram baseados em uma série de livros europeus.


Nunca me envolvi muito com os célebres jogos, mas assisti a série e gostei bastante do que vi. O suficiente para me interessar pelos livros e eliminar um dos países do fatídico desafio UM LIVRO DE CADA PAÍS DO MUNDO. The Witcher, para quem ainda não sabe, foi escrito por Andrzej Sapkowski, autor polonês. Então, para quem achou que discutiríamos os horrores da invasão alemã à Polônia na literatura europeia, lamento. Falaremos de bruxos.


Primeiro, vamos colocar um pouco de ordem na casa. Segundo uma rápida pesquisa, a saga do Bruxo de Rivea é dividia em sete livros lançados na década de 90. Em ordem de lançamento, temos “O último desejo”, “A espada do destino”, “O sangue dos Elfos”, “Tempo do desprezo”, “Batismo de fogo”, “A torre da Andorinha” e “A Senhora do Lago”.


A história dos jogos é posterior aos acontecimentos de todos os livros.



Seguindo a ordem de lançamento, comecei pelo livro “O último desejo”.

O livro não está estruturado como uma longa narrativa sequencial. No total, temos sete pequenas histórias das aventuras de Geralt de Rívea. Existe a história principal “A voz da razão”, que é intercalada por outras seis pequenas narrativas.



Em “A voz da razão”, Geralt está no templo de uma amiga sacerdotisa, recuperando-se dos ferimentos adquiridos em um de seus contratos –no caso, nos eventos do primeiro conto “o bruxo”, detalhado mais abaixo. A estadia de Geralt, contudo, chama a atenção de sujeitos poderosos que não admitem a presença de um bruxo

em seu território.


Em “o bruxo”, Geralt consegue um contrato para lidar com uma estrige que vem atormentando os moradores de Wyzim, capital do Reino de Temeria. Infelizmente para o bruxo, o contrato não é um simples acordo de extermínio. Geralt descobre muito cedo que o rei da Temeria não quer a estrige morta, mas curada. Isso porque a criatura tem uma forte relação com o rei e sua falecida irmã.



Um grão de veracidade” é o segundo conto do livro “O último desejo”. Geralt

investiga a morte de alguns viajantes encontrados na floresta. Em pouco tempo, acaba na casa de uma poderosa, porém bem educada, besta. Ao longo do livro, Sapkowski faz referência a diferentes contos de fadas e histórias folclóricas. Tive a impressão de que essa foi a sua adaptação

de “A bela e a fera”. Bom, uma delas, na verdade.

"Uma questão de preço" trouxe elementos similares.





“O mal menor” foi provavelmente a primeira história que me fez enxergar o romantismo de Geralt como um dos principais conflitos que movem a história. Um feiticeiro pede ajuda do bruxo para lidar com uma perigosa ameaça feminina. Neste conto descobrimos que algumas princesas que nasceram sob um eclipse solar teriam sofrido uma espécie da maldição/mutação. Segundo o feiticeiro, elas seriam arautos de Lilith e preconizariam a vinda da divindade, que traria o apocalipse. Geralt ouve a história do feiticeiro com ceticismo, apontando que toda a história da maldição teria, na verdade, um fim político. Além disso, recusa-se a matar a princesa, pois ela seria humana. Ao longo de todo esse capítulo, o feiticeiro luta contra a ideia de escolher um mal menor. Geralt se prende a um mundo preto e branco, no qual as escolhas devem ser pautadas por uma moral clara de bem e de mal.





“Uma questão de preço” é uma história interessante. Pode ser outra referência à história da bela e a fera.


Neste conto, uma rainha cria espécie de cerimônia para que sua filha escolha um marido. A rainha pressiona o bruxo para que ele execute um serviço ao longo da cerimonia, embora se recuse a detalhar o trabalho.


Aqui, fiquei confuso com certas decisões da série da Netflix. Ao final do capítulo percebi que eles modificaram um ponto chave da narrativa que parece bem importante para a construção de Geralt enquanto personagem.


Esse também parece ser um dos contos mais importância neste primeiro livro, pois vincula o protagonista a acontecimentos futuros.


“Os confins do mundo” lança um pouco mais de profundidade em Geralt de Rívea.

Se a obra de Sapkowski se limitasse a uma narrativa do bem contra o mal, do monstro morto no final do dia após uma difícil batalha, provavelmente a saga não teria alcançado seu devido reconhecimento. Os monstros estão (ou não) no universo de Geralt para simbolizar o verdadeiro conflito do personagem: o todo poderoso bruxo não entende mais o seu lugar no mundo. Passou a vida sendo treinado para enfrentar as bestas que ocupam o seu continente, mas quando se lançou no mundo, percebeu que aquilo que aprendera sobre a vida não é o que lhe ensinaram e, nas novas pessoas que surgiram, não sabe qual é verdadeiramente seu propósito. Como nós, Geralt está perdido.


Há uma tragédia bem forte quando você representa algo que já não faz mais tanto sentido. Em certas parte do livro, não pude deixar de comparar Geralt, de Rívea, a Roland, de Gilead, o pistoleiro das histórias da Torre Negra. Como nos romances de King, o bruxo muitas vezes parece alguém que se preparou para um mundo que seguiu adiante. Aliás, em diversos pontos do livro eu pensava “Geralt definitivamente é um pistoleiro”.


Maldito seja Stephen King e seus multiversos com toneladas de detalhes cansativos que não saem da cabeça.


De todo modo, Geralt é um cavaleiro romântico em um mundo cínico que já começou a transformar os próprios valores. Por isso, o bruxo não sabe exatamente o que fazer. Porque fazer. E onde fazer. Isso é muito bem representado pela história do Troll em baixo da ponte.


Como mencionei, ao longo da narrativa Sapkowski brinca com diversos contos de fadas, moldando-os para que sirvam de alguma maneira a sua história. Dentre todas essas colocações, a que mais chamou minha atenção foi a história do Troll que vive em baixo de uma ponte. Um dia, enquanto reclamava de como não entendia o mundo, Geralt comentou com um amigo:


“– (...) Certo dia, cavalgo por aí, e o que vejo? Uma ponte e, debaixo dela, um troll exigindo pagamento de pedágio para atravessá-la. Dos que se recusam, o troll quebra uma perna, às vezes as duas. Diante disso, procuro o prefeito e lhe pergunto quanto me pagariam para dar cabo do troll. O prefeito abre a boca de espanto.

Como?! E quem manteria a ponte em bom estado se não houvesse o troll? Ele zela pela ponte, conserta-a regularmente com o próprio suor e a mantém em perfeitas condições. Assim, fica muito mais em conta pagar um pedágio para ele’.”


E é justamente com essa sensação de despertencimento, confusão e anacronismo que a história de “os confins do mundo” acaba lidando. Os principais personagens deste conto são criaturas que perderam seu lugar no mundo, já não o entendem, e não sabem, verdadeiramente, o que fazer perante ele.





“O último desejo” é o último conto a entrecortar a narrativa principal. Nessa história aprendemos um pouco mais sobre a relação de Geralt com a feiticeira Yennefer, diversas vezes mencionada na narrativa principal. Adianto que a história de Yennefer foi muito melhor aprofundada na série do que neste livro. Mas imagino que outra obra trata melhor da origem da feiticeira.


“O último desejo” explica também um pouco da mitologia do universo de Sapkowski. Pelo o que entendi, a magia se origina dos 4 elementos. Cada um possui uma dimensão original, e parte dela acaba vazando para o nosso universo (algo similar ao que alguns teorizam sobre a origem da gravidade). Há, portanto, uma dimensão constituída apenas pelo fogo em suas mais variadas formas, uma pelo ar em diferentes formatos, e por aí vai. A manipulação desses elementos seria, basicamente, a origem da magia no universo.


De todo modo, esses universos elementais são habitados. E, de vez em quando, algumas das criaturas desses mundos acabam caindo na Terra. Essas criaturas são extremamente poderosas, já que são, em essência, magia viva. Alguns feiticeiros aprenderam a controlá-las, colocando-as em garrafas. E, aqui, temos a origem da lenda dos gênios.


Yennefer pretende manipular uma dessas criaturas, embora não saibamos com detalhes o que ela pretende (a série deixa isso muito mais claro). É nesse capítulo que o destino de Yennefer e Geralt acaba se entrelaçando, pelo o que entendi, para sempre.

Impressões gerais


A separação da história em pequenos contos é uma abordagem interessante de Sapkowski. Me lembrou um pouco “birdbox”, que possui duas narrativas, uma no presente e outra no passado. Aqui, contudo, é mais prazeroso. Cada capítulo é escrito como uma história completa, com introdução, desenvolvimento e desfecho competentes. Sim, eu sei, é isso que se espera de um conto. Mas como todas as pequenas histórias giram em torno do mesmo personagem, embora tenhamos um universo encerrado em si, acabamos conhecendo um pouco mais de Geralt, de uma forma nada cansativa. Leia a história principal, um pequeno conto e vá tomar um suco para voltar no dia seguinte.


A estratégia de Sapkowski é eficaz. As histórias são, no geral, bem interessantes e não dependem muito das cenas de ação. Aliás, me parece esse o grande trunfo dos autores que escrevem histórias do tipo: depender pouco das cenas de ação, já que a literatura não é uma mídia muito competente para essa empreitada, quando comparada a qualquer coisa que utilize imagens. Talvez fale mais sobre isso outro dia.


Recomendo o livro para quem gosta de fantasia ou simplesmente de contos de fadas. Definitivamente valeu meu tempo. Mais pra frente darei uma olhada em todos os livros da série.

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