• Barbosa

O Estado das coisas


Se dentro de algum dos apartamentos desses prédios que permanecem em pé lado a lado como muralhas ao longo de avenidas e ruas das cidades ainda houvesse uma única pessoa, esta ao caminhar até a janela e olhar para fora como tantos de nós fizemos tantas vezes veria uma cena cotidiana e espantosa ao mesmo tempo.


Ao olhar para a rua ao meio dia, com o sol em seu ponto mais alto, essa pessoa enxergaria carros estacionados próximos ao meio fio, bancas de jornais com suas revistas e folhetins expostos e a rede elétrica pendendo no ar sustentada pelos postes. Caso houvessem nessa rua, ela veria lojas, igrejas, bicicletas acorrentadas e todo tipo de indicio de que esta é uma rua tão comum como qualquer outra do mundo. Apenas uma coisa essa pessoa não veria por mais que procurasse: outras pessoas.


O ser humano desapareceu por completo do mundo. Não se sabe como, nem o porquê visto que não sobrou nem uma única alma para fazer essas perguntas ou para responde-las. Da mesma forma não existe ninguém para se espantar pela maneira como todas as coisas parecem mais organizadas e asseadas do que jamais estiveram enquanto foram governadas pelo gênero humano. Não há lixo nas ruas, ou nos lagos, nem carros abandonados, nem coisas por fazer. Não que seja importante, uma vez que já não há ninguém para observar esse fato, mas também não há torneiras abertas ou armários com as portas por fechar. Tudo está em seu devido lugar apesar do fato de não haver ninguém.


Seria um exercício de muita imaginação tentar descobrir o que houve com todos, mas não é preciso ser tão imaginativo para entender que o que governa o mundo é justamente aquilo que mais valor tinha para seus antigos donos: as coisas. São elas as únicas testemunhas de um mundo que já não existe, um mundo semelhante à uma tarefa deixada por fazer, mas que ninguém esperava que fosse concluída. Os carros de luxo agora não vão mais à lugar algum contra sua vontade e os televisores não se importam com os sacrifícios que foram feitos pelos seus antigos senhores. Da mesma maneira as roupas, tanto as que possuem etiqueta quanto aquelas sem procedência conhecida se veem como iguais, descansando lado a lado em seus cabides.


Claro que as coisas não são os únicos nesse novo mundo, toda classe de animais conhecidos e nunca vistos perambulam de um lado para outro, mas todos vivem no reino das coisas. O ninho das aves descansa no topo dos monumentos suntuosos, os moluscos fazem das caixas de margarina sua proteção, os cães enterram seus ossos nos jardins das mansões e os insetos se amontoam entre as estantes das bibliotecas. Em suma, até a mais insignificante das criaturas pôde sentir que apesar do mundo ser governado pelas coisas, eles não precisam servir seus novos mestres como faziam com os antigos. Vivem em simbiose e em harmonia.


Por fim, se houvesse alguém, notaria, talvez com algum espanto, que o mundo não acabou junto com o ser humano, apenas mudou de mãos. E, pensando melhor, talvez nem isso.

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