• Barbosa

O Homem do Castelo Alto - Philip K. Dick



Essa semana vou falar sobre as minhas impressões a cerca do livro "O Homem do Castelo Alto" do escritor norte-americano de ficção científica Philip K. Dick. Talvez a obra mais conhecida do autor seja "Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?" escrita em 1968 e que mais tarde seria adaptada para o cinema por Ridley Scott sob o título de Blade Runner, mas recentemente o Prime Video produziu uma série baseada em "O Homem do Castelo Alto" o que pode ajudar a aumentar o interesse pelo título.


Devo dizer que a história é bem diferente do que eu imaginava, talvez por ser o primeiro livro que leio do autor. A premissa é muito interessante: imagine um mundo onde os países do eixo venceram a Segunda Guerra Mundial. Que tipo de cultura, tecnologia ou sociedade teríamos? Pensava que o livro ia tratar disso já em sua primeira camada, pois era o que eu queria ver e o que motivou a começar a leitura. PKD até nós mostra isso, mas através do olhar de alguns personagens que acompanhamos ao longo do romance. Um lojista norte-americano, um operário judeu, uma judoca também norte-americana, um empresário japonês e um agente europeu.


O que estranhei durante a leitura foi me ver obrigado a acompanhar o cotidiano, algumas vezes banal, desses personagens enquanto que minha vontade era explorar esse mundo tão exótico imaginado por Dick. Dou um exemplo, não há muita menção à personagens negros nessa obra. Até acredito que eles seriam uma minoria nesse mundo distopico, mas o fato de se falar tão pouco sobre eles deveria ter algum significado para o autor. Inclusive em determinados momentos os personagens conversam sobre o "fracasso nazista na África", mas nunca é dado para o leitor mais detalhes sobre o que aconteceu no continente. É como se esse fosse um evento de conhecimento geral entre àqueles que habitam esse universo, mas cuja as informações nos são negadas. Esse é só um exemplo, existem diversos outros aspectos socioculturais da realidade imaginada por PKD que estão além do nosso alcance e que me fez ter a sensação de que estava lendo sobre algo interessante mas que jamais sacia completamente a minha curiosidade.


"Querem ser os agentes da história, não as vítimas. Identificam-se com o poder de Deus e acreditam ser divinos. É essa sua loucura básica"


Como disse, o pouco que o autor nos revela é através das experiências desses cinco personagens. E é por esse caminho que fica claro a dualidade no tratamento da cultura norte-americana. O que pertence originalmente ao período pré-guerra é considerado um artigo raro, de grande valor e restrito a um ambiente de colecionadores, já o que é produzido no pós-guerra é tratado como banal e sem valor artístico, podendo ser, no máximo, direcionado às periferias do mundo (entenda-se pela América do Sul). Descobrimos ainda que, apesar da população chinesa em si ser discriminada, aspectos de sua cultura foram incorporados pela sociedade desse mundo, principalmente nas regiões dominadas pelos japoneses.


Creio que o maior valor de "O Homem do Castelo Alto" seja a reflexão sobre a realidade e sobre a adaptabilidade do ser humano. Veja, o autor não faz juízo de valor sobre o mundo retratado no livro, até porque a experimentamos pelos olhos dos personagens e eles não conhecem nenhuma outra realidade além da sua própria. O que nos leva a pergunta: Existe alguma realidade privilegiada em relação a qualquer outra possível? Como fez ao longo da história, o ser humano também se adapta ao regime desse mundo. Claro que os personagens criticam seus líderes, há traição entre aliados, xenofobia, sistema de classes e exploração dos povos periféricos, mas isso é algo tão diferente do que ocorre na nossa própria realidade?


"Um mundo psicótico, este em que vivemos. Os loucos estão no poder. Há quanto tempo sabemos disso? Encaramos isso? E... quantos de nós sabem?"


Para causar esse impacto foi uma boa decisão do autor não narrar a história logo após o fim da guerra, o que implicaria em um mundo ainda em confronto, ou em reconstrução, nem em um futuro muito distante, o que dificultaria com que o leitor se identificasse com aquele universo. Philip K. Dick não revela de forma explícita em que época se passa a história, , mas não deve ser muito distante da década de 60 (o livro foi escrito em 1962). Inclusive a obra retrata uma alternativa paralela à corrida espacial.


"O Homem do Castelo Alto" não é uma ficção científica baseada em ação, ou atos de heroísmo, mas um livro que provoca reflexão e ajuda na busca por autoconhecimento.


("O Homem do Castelo Alto". Autor: Philip K. Dick. Editora Aleph. 312 páginas. Edição de 2019)

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