• Barbosa

O Maior do Mundo



Hoje, 21 de julho, o Mister Jorge Jesus desembarcou em Portugal para encarar seu próximo desafio na carreira: o retorno ao Benfica. Por lá o treinador português obteve sucesso exatamente no comando dos encarnados onde foi tricampeão da Liga e conquistou uma Taça de Portugal, para ficar apenas nos títulos mais relevantes. Após seis temporadas passou a comandar o Sporting, onde não conquistou nenhum título importante durante suas três temporadas por lá. Jorge Jesus ainda treinou o Al-Hilal por sete meses antes de vir comandar o Flamengo em meados de 2019, onde, durante o período de um ano, conquistou o Brasileirão, a Libertadores e a Recopa.


Podemos concluir essa introdução sobre o Mister dizendo em seus 25 anos de carreira como técnico em Portugal ele tinha basicamente quatro títulos nacionais e nada no âmbito internacional. Ou seja, convenhamos que não era um técnico muito relevante no cenário europeu. Em seu 26º ano de treinador ele conquista o segundo maior título continental do mundo e é campeão nacional, no país do futebol, com recorde de pontos e com um futebol que encantou a todos. Em um ano o Mister conseguiu ser adorado pela maior torcida do país, pela imprensa local e se tornou referencia de desempenho para todos os outros clubes do Brasil. Para a temporada seguinte o Flamengo se reforçou ainda mais em relação à 2019 e perdeu apenas um jogador considerado titular. Tudo indicava que o time continuaria sua hegemonia nos torneios e após conseguir alcançar uma receita de quase 1 Bilhão de reais no ano passado se tornou o clube mais rico da América do Sul.


No entanto, bastou que um clube com pouca relevância no cenário europeu atual (bom frisar) e que passa por uma enorme crise institucional acenasse com uma proposta para que o Mister fizesse suas malas e voltasse para o Velho Continente.

O que quero discutir aqui não são as razões de Jorge Jesus escolher encerrar seu ciclo no futebol brasileiro, ou o quanto ele fará falta ao Flamengo e ao futebol nacional. O ponto que levanto está relacionado à bolha em que vivemos quando se fala sobre esse esporte que desperta tantas paixões.


Do que adiantou o Flamengo ser o clube mais rico, ou ter uma estrutura de nível europeu, ou ter a “maior” torcida do mundo? Se o time mais rico do principal campeonato do continente não consegue segurar um técnico que tinha quatro títulos nacionais em 25 anos de carreira na Europa, então nenhum clube consegue. Nós vivemos na periferia do futebol mundial, e ninguém quer vir para a periferia se puder estar no centro. Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália, França, Portugal, Turquia, pode incluir também Japão, EUA e China aí. Qualquer liga de um desses países sem dúvidas é mais atrativa para um profissional do futebol do que o Brasil.


Ainda assim, nós vivemos nessa confortável bolha de que somos os donos do futebol, que nosso clube está entre os maiores do mundo (aqui se enquadra qualquer um dos doze grandes brasileiros) e que todo mundo sonha em jogar no nosso time. No caso recente do Flamengo ainda tem o agravante de que essa megalomania atinge aqueles que deveriam ser mais realistas: os dirigentes. Do que adianta o clube receber 5x mais pela transmissão do que os rivais? Ou assediar jogadores dos co-irmãos? Jogamos todos o mesmo campeonato de um país sub-desenvolvido do terceiro mundo. No mundo corporativo é desejável que a concorrência quebre, que desapareça e que minha companhia seja a único a oferecer determinado serviço no setor, mas no âmbito esportivo os adversários são tão importantes quanto minha própria instituição. Porque se não tiver Vasco, Botafogo e Fluminense pra jogar contra o Flamengo, esse acaba. E também não adianta ter adversários fracos, porque dessa forma a liga será fraca e não despertará interesse em ninguém (Primeira Liga, alguém lembra?).


A reflexão que gostaria de provocar aqui é que não vejo como esse capitalismo selvagem pode funcionar no futebol brasileiro, e se o Flamengo quiser ser cada vez mais protagonista ele tem a obrigação de ajudar no desenvolvimento dos demais times, e quem sabe ser a argamassa de união entre eles e não um agente de separação. Todo o futebol sul-americano está em outro patamar.

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