• Leandro Barreiros

PERDEMOS AS ELEIÇÕES... E A CULPA É DO PT


E nossa, também. Mas principalmente do PT.


No último domingo o povo brasileiro escolheu seu representante político para os próximos quatro anos. Não é, de longe, uma escolha que me agrade. Aliás, é a última que eu faria. Acredito que muitas pessoas que votaram no homem viverão para ver o tiro da arma que literalmente usaram para votar sair pela culatra e atingi-los no olho.

Talvez essas pessoas consigam associar suas escolhas aos rumos que o país vai começar a tomar. Talvez não. Quero dizer, o que se pode esperar de um sujeito que confunde voto de governador com o de presidente, faz um estardalhaço dizendo que a urna está fraudando votos, infringe a lei eleitoral querendo filmar tudo, empurra uma mulher que está fazendo seu trabalho e da carteira para não ir para a cadeia e que, obviamente, é contra a corrupção? Não muito¹ (leia a nota antes de se sentir ofendido).


De todo modo, já adianto que ao contrário de muitos colegas, quando digo que a coisa provavelmente vai piorar não é porque o presidente hoje é racista, homofóbico e machista. Quero dizer, isso já é um soco no estômago. E se você acredita que todas as entrevistas do capitão foram manipuladas e que as pessoas deveriam assistir aos vídeos inteiros antes de formarem a opinião, sugiro que você siga o próprio conselho.


Mas o que realmente vai morder as pessoas no traseiro vai ser a eleição de um cara que falou abertamente que precisava retirar direitos do povo para um bem maior. No caso, o bem dos empresários.


Mas, mesmo assim, não é isso que me preocupa. O jogo democrático da direito à vitória pelo voto e, também, a derrota pelo voto. Em outros tempos, teríamos que sangrar, correr, saltar e atirar para perder ou não a disputa dos rumos republicanos. Imagina como isso faria mal para minha ciática! Assim, sermos derrotados nas urnas não é de todo ruim.


O que realmente me preocupa é a lição que a esquerda parece não estar aprendendo com a revolta. Desde o final do primeiro turno até esta nublada terça chorosa, tudo que vejo é a frustração e o inconformismo com as escolhas políticas daqueles que votaram no militar. A pauta é "como são burras essas pessoas"; "como são egoístas"; "como são manipuláveis"; "como são racistas, machistas e homofóbicos". O mesmo que diziam antes do resultado (bem previsível, aliás) se confirmar.


É um pensamento que faz bem para o ego. Se nossa maior preocupação for a autoestima, devemos continuar com ele.


Afinal, se o cara que votou na extrema direita é burro, manipulável, preconceituoso e todo tipo de caralhos, eu, que não votei na extrema direita, sou inteligente, autônomo, livre de preconceito e tenho a quantidade certa de caralhos.


Foi esse tipo de pensamento que levou nós da esquerda, e a intelectualidade de uma maneira geral, a voarmos cada vez mais alto em nosso zepelim vermelho, nos afastando progressivamente do pobre que dizemos defender. Não um afastamento intencional, mas material. Qual não foi a surpresa quando o pobre, o protegido que já quase não escutávamos sobre as nuvens de nosso fodástico dirigível, e mesmo a classe média, que se tornou classe média graças ao PT, decidiu definitivamente rumar o navio para a direita?


Nenhuma. A surpresa não foi nenhuma. Ou, pelo menos, não deveria ter sido. E aqui entra a verdadeira essência dessa postagem. Ao invés de odiarmos o cara que tem uma agenda completamente diferente da nossa, que acredita na lógica do discurso de Bolsonaro (e, sim, quer queira ou não, o discurso dele é lógico), fiquemos frustrados com nosso próprio movimento de esquerda. Desçamos do zepelim e problematizemos o que deu errado. E que não repitamos nossos erros.


Aliás, foi tanto erro que não dá para abordar todos aqui. Se não este post grande vai ficar ainda maior e, convenhamos, ninguém quer isso. Vou falar apenas do mais grave deles: o projeto de poder do PT, que por tanto tempo liderou a esquerda.

E aqui está o cerne: todas as pesquisas já colocavam Bolsonaro no segundo turno, contudo, por conta do seu alto índice de rejeição, as pesquisas apontavam que ele perdia para todos os presidenciáveis que tinham alguma chance de sobreviver ao primeiro turno.


Todos menos um: Haddad. Isso por conta da alta rejeição do PT, construída nos últimos 8 ou 12 anos pela mídia.


Mas qual seria o problema? Todos os outros candidatos venceriam. Melhor do que isso, o PDT, partido de esquerda, representado por Ciro Gomes, não apenas liderava o segundo lugar, mas era também o partido com maior probabilidade de bater o capitão no segundo turno. Bolsonaro seria obrigado a expor seu planejamento em debates e seria engolido por Ciro.


Mais 4 anos de esquerda a frente do país, certo? Bem, seria, se a esquerda não fosse sabotada... pela esquerda.


Temendo que o PDT assumisse a liderança da centro esquerda, empurrando o PT para o segundo ou terceiro plano da política brasileira, o partido dos trabalhadores se esforçou em isolar Ciro Gomes e, ao invés de negociar apoio ao sujeito que tinha a maior expectativa de derrubar o PSL no segundo turno, massificou um amálgama de Lula e Haddad, roubando votos da própria esquerda. Muitos de nós, sabem lá os deuses porque, migraram os votos do Ciro para o Haddad. A consequência : os votos de centro e centro direita antipáticos ao PT migraram em peso para o Bolsonaro, criando uma distância entre o candidato da extrema direita e o agora representante da esquerda (/segundo o PT, que depois da merda que fizeram decidiram monocraticamente que Haddad é o novo líder democrático da oposição de esquerda do Brasil, /segundo o PT)² que não seria mais revertida.


Bolsonaro não se deu nem ao trabalho de aparecer em um debate. Não precisava. Tal foi a cova que o PT cavou para si, para a esquerda e para o povo.


Então, ao invés, de nos frustrarmos com a opção política das pessoas que se identificam com o projeto do Bolsonaro, não deveríamos rever o nosso próprio planejamento e falta de entendimento sobre a orientação do povo? Se os votos da esquerda não tivessem migrado para o Haddad, viveríamos este drama? Foi uma cartada de mestre ter uma candidata a governo do PT dizendo que quem não votasse no Haddad no primeiro turno tinha mais é que apoiar o Bolsonaro no segundo? (o vídeo mais legal é que está abaixo, com a cara do Tarcísio Motta). É realmente inteligente culparmos os votos no Bolsonaro como consequência de milícia nas favelas, falta de inteligência das pessoas, conspiração internacional da extrema direita de manipulação do Facebook?



Menos, muito menos.


O povo escolheu, e a falta de compreensão da esquerda sobre o povo que diz defender (e me incluo nessa crítica), sobre os valores que são realmente importantes para a maior parte da população, fez com que tomássemos a atitude cômoda e mesquinha de dizer "são todos burros, menos nós".


Vejo a insistência desse discurso nos grupos que participo. Admiro com sinceridade a esmagadora maioria das pessoas nesses grupos, seja pela sua militância de longa data, seja pela sua paixão juvenil. Universitários e professores, amigos e colegas. Vejo apenas lamentos sobre o fascismo que se instaurou/irá se instaurar. Lamentos sobre como as pessoas preferiram Bolsonaro ao "nosso" partido PT. E, sobretudo, vejo o vazio. A ausência de crítica a essa absurda e irresponsável estratégia que o PT adotou, COMPROMETENDO TODOS NÓS.


Enfim. Precisamos, em quatro anos, nos tornar uma esquerda menos moralista, mais pragmática. E esses quatro anos serão essenciais, porque se a extrema direita não cair na próxima eleição, é provável que o Flávio Bolsonaro seja o presidente em 2026.

E reforço, não nos enganemos, a esmagadora maioria dos que elegeram o próximo presidente não compartilham a personalidade machista, homofóbica e racista do cara. Por isso que um monte de gente que jamais esperávamos que apoiasse o candidato, apoiaram. Se inseriram no discurso de que era ele a opção ao modelo político vigente e votaram no cara apesar dele ser essas coisas, ou acreditando que nosso discurso era exagerado.


Se continuarmos apontando o dedo na cara dos outros, chamando eles de fascistas, tomaremos outro banho na próxima eleição. Mas isso é assunto para outra postagem. O foco dessa é o desfavor que o PT nos prestou.


Enfim, paremos de culpar os outros pelas falhas que nós tivemos em nossa estratégia política. É melhor descermos do nosso burro e pararmos de combater moinhos. Senão, amigos, é melhor jairmos nos acostumando para 2022. Mas, ei, pelo menos vamos poder dizer que somos melhores do que os outros, né?


E, se você realmente não gostou da postagem e acha que perdeu completamente seu tempo, deixe-me recompensá-lo com um vídeo do Cabo Daciolo dizenro Para o Marco Feliciano que ele tem a pomba gira nele.



1-Só para ficar cristalino como água, me refiro a uma parcela específica de pessoas sem noção que votam no Bolsonaro. Acho que parte do discurso esquerdista de que "quem vota nele é assim e assado" um dos maiores problemas que precisamos desconstruir para avançar.


2-lembra a parte de não repetir os mesmos erros? O PT não esperou nem uma semana...

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