• Barbosa

Sessão Terror


A criatura avança cambaleante por entre a vegetação densa. Com seu corpo musculoso ele esmaga galhos e derruba troncos até que chega em uma clareira às margens de um lago. Inconsciente do perigo que se aproxima, uma menina colhe flores próximo da água quando o movimento das árvores chama sua atenção para a monstruosidade que irrompe por entre o matagal. Em sua inocência infantil a pequena oferece uma de suas flores para o colosso de 2 metros de altura. Surpreendentemente, apesar de sua aparência horrenda e força descomunal, a criatura demonstra ser tão inocente quanto a menina que tenta interagir com ele, e ambos iniciam uma brincadeira que consiste em jogar flores no lago apenas para vê-las flutuar. No entanto, o que parecia ser uma demonstração de candura do ser bestial provou-se apenas a mais pura estupidez. E sem nenhum momento de hesitação a vil criatura ergue a criança do solo e a atira ao lago como se ela não fosse mais que uma flor colhida no campo. Sua única demonstração de desgosto foi ao observar enquanto a pequenina, diferentemente das pétalas, submergia para o fundo do lago gritando em vão por ajuda enquanto que seus pulmões se enchiam de água.


- Cara, eu amo essa cena! – disse Amorim consigo enquanto consultava o visor digital do relógio logo abaixo da televisão que transmitia o clássico Frankenstein de 1931. – Já são quase uma da manhã! Acho que vou terminar de assistir outro dia. – pensou. – Amanhã tenho que estar na delegacia logo cedo.


Inspetor Amorim, é o tipo que se pode chamar de sonhador. Trata-se de um homem de porte físico magro e esguio. Mais osso do que carne. Aos 32 anos, ele possui um cargo estável com uma boa remuneração na Polícia Civil como inspetor. No entanto por um motivo pessoal esse emprego não o satisfaz. O que Amorim realmente sonhava ser era diretor de cinema.


Durante sua adolescência ele participou de grupos de teatro no colégio, mas suas habilidades de atuação, para ser generoso, eram apenas medíocres. Ao se formar no ensino médio decidiu que queria cursar faculdade de cinema, mas como não existia nenhuma na cidade em que ele morava seguiu o conselho de um amigo e estudou ciência da comunicação, imaginando que era o curso mais similar disponível. Quatro anos depois, e sem nenhuma experiência profissional, Amorim tinha um diploma que não sabia exatamente para que servia. Preocupados com o futuro do filho sonhador os pais de Amorim insistiram para que ele prestasse um concurso público. Por mais que o porteiro e a dona de casa não soubessem o que é “prestar um concurso público” eles tinham uma visão prática da vida, e viam os filhos dos amigos conseguirem empregos estáveis dessa maneira.


Assim, há sete anos Amorim ingressou na Polícia Civil no cargo de inspetor e se tornou o orgulho da família, mas o que seus parentes não sabem é que a razão do inspetor nunca ter tido namoradas ou amigos é consequência de uma solidão auto imposta por conta da frustração que sente. Pois há sete anos que a rotina de Amorim consiste em ir do trabalho direto para casa e não fazer outra coisa além de assistir filmes e estudar os grandes mestres da indústria do cinema. E nessa sua única fonte de prazer ele investe cada minuto do seu tempo livre, chegando a passar horas e horas a fio na frente da televisão alheio a tudo, exceto ao aparelho à sua frente, tão absorto que muitas vezes não se lembra de comer ou beber. Incapaz de notar qualquer fenômeno ao seu redor.


Exatamente como nesse instante em que, enquanto o inspetor aprecia o centenário filme Frankenstein, se materializa das sombras de um canto da sala um homem de aspecto magro e rosto fino, cujos olhos expressivos parecem querer saltar das órbitas.

- Ora, essa foi uma das minhas melhores performances, não acha? – Falou o homem.


Tão grande foi o susto de Amorim que ele por pouco não caiu da poltrona em que estava sentado. No entanto, ao encarar o homem ele o reconheceu imediatamente.


- Você é Boris Karloff! Como é possível? – gritou de surpresa, mas com uma nota de fascínio na voz. – Você faleceu há décadas!


- Infelizmente isso é verdade meu amigo. Mas é justamente por não pertencer mais ao plano dos vivos que posso vir aqui te visitar. – respondeu apoiando-se no braço da poltrona onde Amorim permanecia sentado.


- Quer dizer que você é o fantasma de Boris?


- Não exatamente. Veja, não existe isso de espíritos ou vida após a morte. Mas o que os humanos realizam nesse mundo, isso deixa uma marca para as gerações futuras. Entende? Você nunca conheceu pessoalmente o ator Boris Karloff, mas se lembra dele por conta do legado que ele criou. Assim, cada pessoa deixa um estigma impresso na realidade, consequência de suas realizações.


Amorim encarava a figura de Boris com uma expressão que misturava assombro e uma total incompreensão. Assim, a única frase que conseguiu formular foi:


– Não sei se entendi.


- Não se preocupe meu amigo. A maioria das pessoas não compreendem a teoria da relatividade geral e ainda assim estão sujeitas aos efeitos da gravidade. Não se apegue a essas pequenas questões abstratas. Você pode me aceitar como uma lembrança. Não a lembrança de um indivíduo, mas a personificação de todas as recordações gravadas na história do mundo. – Nesse momento o homem está com o rosto a poucos centímetros do rosto de um confuso Amorim, e acrescenta: - Só que as manchas desse plano já atingiram um ponto crítico demais para continuar nas sombras. Vamos deixar de discutir meus problemas, vamos conversar sobre como eu posso te ajudar.


- Me ajudar? Eu preciso de ajuda?


- Ora Amorim, não precisa? E não é justamente por causa do seu problema que foi possível vir aqui conversar com você? Você deseja algo Amorim, não precisa fingir para mim. E eu posso te ajudar a alcançar o que você deseja.

Amorim instintivamente se vira para a televisão onde o próprio Boris Karloff, caracterizado como a criatura do dr. Frankenstein, se refugia em uma torre. No entanto, Amorim assistiu filmes suficientes para saber que nada vem de graça.


- Pode esquecer se pensa que eu farei um pacto com o demônio! Seja qual for a vantagem que você me oferecer!


O homem soturno solta uma gargalhada alta e rouca, e emenda enquanto tenta conter o riso: - Você acha que eu sou o diabo ou algo assim? Eu não acabei de explicar o que sou? Não se preocupe Amorim, não quero sua alma. Já lhe disse que não existe esse tipo de coisa. Na verdade, não quero nada de você. Apenas que aceite a minha ajuda.


- E que ajuda seria essa? – respondeu desconfiado.


- Posso ajudá-lo a se tornar o maior cineasta que o mundo já viu! Com uma sensibilidade artística maior do que a de todos os mestres somados!


Apesar da empolgação que Boris empregou nas palavras, aquilo soou quase como um deboche para Amorim. Ele era um policial frustrado, que tipo de feitiçaria o tornaria um cineasta brilhante?


- Acho que está zombando de mim sr. Karloff. – respondeu secamente.


- Não poderia estar mais longe da verdade meu amigo. – disse, aproximando-se novamente da poltrona de Amorim. – Diga, não gostaria de compartilhar da técnica de um Murnau, ou dos conhecimentos de um James Whale, ou ainda da criatividade de um Hitchcock, ou da genialidade de um Kubrick?


Amorim não conseguiu conter um riso de satisfação com a ideia.


- Eu posso te conceder isso, e em troca não peço nada para mim. No entanto, isso não significa que você não precisa fazer nada. Afinal, todo resultado demanda um esforço. – acrescentou – Ao acordar, você vai receber um envelope com um pen-drive. Trata-se de uma seleção dos meus filmes favoritos. Basta assisti-los e você vai notar que está assimilando algo além de cultura. Você vai verdadeiramente aprender o que os realizadores desses filmes sabiam apenas assistindo suas obras.


- Quer dizer que basta assistir a esses filmes e tudo o que tornava cada um desses diretores um gênio vai passar para mim? É só isso?


- Exatamente. Sem barganhas, nem contratos assinados com sangue. – disse Boris com ar professoral. – Só que você deve assistir cada filme até o final. Do contrário não funciona. Não se esqueça disso!


Neste exato instante Amorim acorda com um sobressalto ao ouvir o toque do interfone. Ele nota, pela claridade que invade a sala, que já é de manhã e dormiu a noite inteira na poltrona. Um segundo toque do interfone o desperta completamente e ele atende o aparelho com a voz ainda rouca. Do outro lado alguém diz:


- Bom dia! Aqui é dos correios. Uma entrega para o sr. Amorim.


...


À noite, ao retornar para casa, Amorim foi diretamente até a mesa de centro, onde ele deixou o envelope com o pen-drive que havia chegado pela manhã. Durante todo o dia ele não conseguia tirar da cabeça o sonho que tivera na noite anterior. Um sonho tão real que ele tinha dificuldade em acreditar que aquela conversa com o ator Boris Karloff realmente não acontecera.


Amorim plugou o dispositivo na TV e sentou-se na poltrona. Na tela surgiu o ícone de uma pasta, que continha uma lista de filmes. Haviam centenas deles, alguns clássicos, muitos desconhecidos. Conforme ia percorrendo a extensa lista Amorim leu títulos como “RAW”, “Centopeia Humana”, “Anticristo”, “O Bar Luva Dourada”, “Holocausto Canibal”. Quanto mais ele ia descendo a lista mais estranho iam ficando os nomes, e eram tantos que não parecia ter fim. Amorim resolveu voltar para títulos mais conhecidos e deu play em “Sangue de Pantera”. Um filme antigo, em preto e branco que ele já havia assistido quando adolescente, então já era hora de revê-lo.


Conforme a história de Irena Dubrovna se desenrolava na tela, Amorim ia experimentando uma sensação que só poderia ser descrita como bizarra. Era como se uma cortina se abrisse diante dos seus olhos. Para além do roteiro que os atores representavam, ele conseguia entender as escolhas de cada enquadramento de câmera e percebia as sensações que o realizador queria transmitir quando executou a montagem das cenas dessa maneira específica. Compreendeu ainda como a trilha sonora manipulava os sentimentos do espectador, guiando-o pelo caminho que o diretor desejava. Durante toda a duração de “Sangue de Pantera” Amorim estava em transe. Seus olhos vidrados e o corpo inclinado para a frente como se a televisão exercesse uma gravidade nele. Todo o ambiente se esvanecia enquanto o mundo inteiro se tornava preto e branco.


Quando acordou no dia seguinte Amorim ainda estava na poltrona com a mesma roupa que usou no dia anterior. No entanto, ele mesmo se sentia um homem diferente. Experimentava uma compulsão por criar algo, estava ansioso por produzir alguma coisa que pudesse compartilhar com o mundo. Porém, a responsabilidade de ir para o trabalho falou mais alto no momento.


Ao chegar no trabalho o delegado foi logo chamando o inspetor para a sua sala.


- Amorim, preciso que você vá ao Parque Municipal. Uma mulher foi encontrada morta essa madrugada. Pelo que me falaram ela não foi descoberta em condições muito usuais. Dá uma olhada por favor.


Ao chegar no parque ele verificou que o corpo da mulher estava coberto com uma lona preta e um perímetro já estava delimitado. Haviam policiais militares e colegas civis, além de jornalistas e curiosos, é claro. Amorim notou que a vítima se tratava de uma jovem, no início dos 20 anos. O delegado tinha razão, aquela não era uma situação comum. Havia muito sangue espalhado por toda a cena, e pescoço da mulher estava rasgado no lado direito onde músculos e artérias ficaram expostos. Os ombros apresentavam arranhões profundos que abriram sulcos na carne. Tudo indicava que ela havia sido atacada por algum animal selvagem, mas como isso aconteceu em um parque urbano era um mistério para o inspetor.


Amorim passou o dia tão atarefado com o caso da mulher morta no parque que só lembrou dos seus filmes quando chegou em casa. Aquele foi um dia desagradável e ele estava precisando muito assistir alguma coisa para afastar os pensamentos da cena que teve que presenciar. Navegando pela lista gravada no pen-drive seus olhos pararam em um clássico: “O Silencio dos Inocentes”. Ele não tinha ideia de quantas vezes já assistira ao filme de Jonathan Demme, mas era sempre uma ótima pedida.


Amorim estava hipnotizado pela presença de tela de Anthony Hopkins. Tentava entender a magia por trás do fato do ator aparecer apenas por 16 minutos das quase duas horas de filme, mas conseguir entregar uma atuação tão arrebatadora que é como se não houvesse obra além dele. É claro que o roteiro também foi brilhantemente adaptado, criando as condições perfeitas para que todos brilhassem em cena. Enquanto se perdia nesses pensamentos, ele experimentou as mesmas sensações da noite anterior e suas percepções sobre a sétima arte ficavam ainda mais sensíveis e apuradas.


Amorim acordou assustado com o telefone tocando. Novamente ele havia adormecido na poltrona assistindo televisão. Suas costas iriam cobrar o preço disso mais tarde. Ele estendeu a mão e atendeu, era o seu chefe.


- Alô! – falou com a voz embargada.


- Amorim, preciso que você acorde agora e vá atender uma ocorrência! Outra garota morta! Provavelmente assassinada. Ela está na lagoa.


- Ok chefe. Estou a caminho. – respondeu desligando o aparelho.


Ainda estava escuro quando o inspetor chegou na cena do crime e dessa vez não haviam muitos curiosos. A única coisa em comum que essa vítima tinha com a mulher assassinada na noite anterior era o fato de serem jovens. Essa não havia sido morta com brutalidade, porém, após matá-la o assassino removeu grandes partes da pele da vítima. A causa da morte foi um corte na garganta, que um olhar mais atento revelou haver uma espécie de casulo de inseto alojado lá dentro.


...


Amorim não precisava de mais investigações ou exames para concluir o que estava acontecendo. E agora ele não tinha mais dúvidas de que realmente havia conversado com Boris Karloff, ou seja lá o que for que tomava a forma do antigo ator. A questão era o que ele deveria fazer agora. Durante a semana após o segundo assassinato ele conteve a tentação de assistir mais filmes, mas nesse período Amorim escreveu o roteiro para um filme de suspense que, sem falsa modéstia, era genial. Inclusive ele já havia recebido a mensagem de um estúdio interessado em produzir a obra.


- Uma vida inteira de frustração e em apenas uma semana crio algo incrível. – pensou com amargura. – Ainda assim terei que abrir mão desse talento.


Amorim percebia que os dias de abstinência dos filmes estavam cobrando seu preço. Se antes ele sentia uma compulsão irresistível por criar algo, agora suas ideias encontravam-se paralisadas. E aos poucos voltava a ser o homem medíocre que sempre fora.


No início ele mantinha a esperança de que os atentados acontecessem apenas quando ele assistia aos filmes, porém há apenas alguns dias, cavalos aparecerem mortos no hipódromo, e a causa mostrou-se ser uma pantera negra fêmea que foi abatida pelos seguranças do lugar. Nesse caso, Amorim sabia que Buffalo Bill, o serial killer de “O Silencio dos Inocentes” estava escondido em algum lugar, e era apenas questão de tempo até ele voltar a matar. Ainda assim, era cada vez mais difícil resistir aquele pen-drive apoiado no braço da poltrona e suas sedutoras promessas.


Enquanto recordava esses acontecimentos o inspetor notou alguém de pé em um canto da sala.


- Boris! – falou.


- Olá Amorim, vejo que tem tido progresso com o seu problema. – respondeu o homem magro de olhos expressivos saindo da escuridão.


- Maldito! Por sua culpa duas pessoas foram mortas!


- Não vamos nos enganar meu amigo. Sabemos que a responsabilidade por essas vidas perdidas é exclusivamente sua. Na primeira noite você percebeu o que estava acontecendo, e ainda assim não pôde evitar assistir a outro filme. – falou Boris enquanto se aproximava da poltrona. – Mas ninguém vai condená-lo. São ótimos filmes.


- De qualquer maneira acabou! Farei tudo que estiver ao meu alcance para encontrar Buffalo Bill e vou mandá-lo para seja lá de onde vocês vêm. E pode estar certo de que nunca mais assistirei nada daquele pen-drive amaldiçoado! – respondeu gritando enquanto se levantava.


- Meu caro Amorim, personagens de filmes também gostam de assistir televisão, sabia?


Enquanto que a coisa com a aparência de Boris Karloff evaporava ao som de uma gargalhada sinistra Amorim caia de volta em sua poltrona com uma expressão de horror ao notar que o dispositivo demoníaco não estava mais ali.


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