• Leandro Barreiros

Simbolismo e Subtexto nas obras de Yoshihiro Togashi (Parte I)

É hora de falar sobre coisas sérias.


Animes e mangás.


Mais especificamente, gostaria de falar sobre dois elementos de duas obras de Yoshihiro Togashi que fizeram minha admiração pelo autor crescer bastante.


Separarei o post em duas partes, porque, enquanto escrevia, vi que ficaria gigante.


Togashi é conhecido por suas obras Shonen, uma categoria de Mangás voltadas para um público jovem masculino. Essas histórias geralmente são marcadas por soluções de conflitos através de luta física, treino e um cara com cabelo espetado gritando muito.



Goku gritando. Naruto gritando.





Dekku gritando. Natsu gritando.


É uma crença pessoal que a qualidade artística de uma obra não está necessariamente nos seus temas ou em seu público alvo, mas no esmero do artista que produz ao adicionar camadas, metáforas e subtextos ao seu trabalho.


Coraline, Alice no país das maravilhas e Os Lobos Dentro das Paredes, por exemplo, são histórias voltadas para o público infantil, mas são carregadas de um cuidado hipnotizante. Essas histórias tem camadas, que são desveladas a partir da idade e da percepção que cada faixa etária tem do mundo.


A outra mãe de Coraline



Diferentes elementos são jogados no caldeirão que faz uma boa história. Dentre eles, existe o subtexto, que defino como o significado "escondido" dentro do texto, seja ele um parágrafo, um vídeo ou uma imagem.


E existem essas imagens que, desde a minha infância, ficaram impressas em minha memória. Uma delas é uma cena de Yuyu Hakusho, em que aparentemente nada muito relevante acontece.



A turma a caminho do Torneio das Trevas


Hiei conversando com Kuwabara

Quando era criança e vi essa cena decidi que era legal ficar posicionado em lugares altos que demandassem equilíbrio. Hiei era um personagem legal, portanto ficar em pé em cima de um corrimão era legal. Além disso, sem que eu entendesse muito bem, parecia certo que Hiei, e não Kurama, estivesse ali.


Precisei rever a série um pouco mais velho para entender melhor o que estava acontecendo. Para adentrar em outra camada da arte de Togashi.


Hiei é um personagem extremamente humanizado. Tem um forte complexo de superioridade (e de inferioridade), sentindo a necessidade de ser visto como alguém cruel e perigoso. Ele quer que todos olhem para ele como o mais forte.


Mas ele tem 1,60 metros de altura.


Hiei não ficou de pé no corrimão do navio porque é legal. Ele o fez porque sente a necessidade de ser e de mostrar-se o mais alto de todos. Ele senta a necessidade de ser visto como o perigoso.


Esses traços de sua personalidade já estavam bem definidos antes dessa cena. Os motivos que originam esses traços são desvelados mais tarde na série. Hiei é um demônio que nasceu no Mundo das trevas. Especificamente, nasceu na Vila de Gelo, um vilarejo flutuante, habitado exclusivamente por demônios femininas, conhecidas como senhoras do gelo.


Vila de Gelo


O contato dessas senhoras com seres de fora do vilarejo é um tabu em sua sociedade.


De fato, essa espécie de demônios costumeiramente se reproduz de forma assexuada. Como consequência, dão dão à luz apenas meninas, já que apenas os genes femininos são transmitidos.


Quando são fecundadas por demônios masculinos, geram homens, que são vistos como abominações amaldiçoados e são sacrificados, abandonados da altura do céu para encontrar o chão frio do mundo inferior.


A mãe de Hiei quebrou as regras, se envolvendo com um demônio masculino. Ainda bebê, ele foi oferecido como um sacrifício. Abandonado das alturas da vila de gelo porque era uma abominação, um perigo, uma vergonha, um monstro entre os monstros.


E ele sempre soube disso.


“Mesmo antes de nascer, meus olhos viam e meus ouvidos escutavam”

Hiei



Hiei bebê


Destino de crianças masculinas na Vila de Gelo


E, enquanto crescia, abandonado e sem família, Hiei sentiu a necessidade de se adequar ao seu destino. Transformou-se em um Yokai cruel e perigoso, e se esforçou por corresponder ao que as Senhoras do Gelo afirmaram sobre ele.


A sociedade deu-lhe um papel para justificar a crueldade que praticaram com ele e sua mãe. Para lidar com isso, Hiei decidiu não apenas vestir, mas encarnar a máscara que lhe deram. Foi a sua forma de lidar com o seu desastre.


Enfim, a singela imagem de Togashi da turma no barco é fantástica, porque conta muito sobre o personagem de uma maneira simples, simbólica e intuitiva.


Compare, por exemplo, com a fórmula utilizada por Akira Toriyama para estabelecer "Vegeta" como um guerreiro orgulhoso sobre sua raça. Ela geralmente consiste em Vegeta gritando sobre como tem orgulho de ser um sayajin.



Yuyu Hakusho foi o primeiro grande sucesso de Yoshihiro Togashi, mas não o único. Ainda em 98, ele começou um novo mangá chamado de Hunter x Hunter. Para mim, a obra prima (ainda não terminada) do gênero.


Existe um outro exemplo de subtexto que me chama muito a atenção no HxH.


Mas falarei sobre isso na parte II deste artigo.

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