• Leandro Barreiros

Simulações

Sempre gostei de videogames.


Boa parte da minha infância foi dedicada aos mundos virtuais, fosse salvando as criaturas aprisionadas pelo maligno Doutor Eggman, fosse me tornando o campeão da liga pokemon.


De tempos em tempos levava meu vídeo game para lá e pra cá. Lembro de uma vez que, ao jogar International Super Soccer 64, do saudoso Nintendo 64, um tio meu havia declarado de forma entusiasmada que aquela simulação era perfeita. Parecia uma partida de verdade. E jamais seria possível que os jogos melhorassem.

Mas eles melhoraram.


(O jogo que se confundia com a realidade, segundo meu tio)


E com o desenvolvimento da realidade virtual, é provável que a imersão se torne cada vez mais realista. E, quiçá, um dia se tornará indistinguível de nossa realidade. Afinal, em menos de cinquenta anos saímos disso

para isso:


A questão toda é que, provavelmente, isso já aconteceu. E sua infância, aliás, toda a sua vida, também foi dedicada a um mundo virtual.


A ideia de que vivemos em uma realidade virtual não é estranha para a maioria das pessoas que assistiu Matrix. O filme dos irmãos Wachowski é construído sob a premissa de que as máquinas criaram um mundo virtual para enganar os humanos e usá-los como baterias. É uma premissa idiota, admito, mas o filme a utiliza para falar de controle social e dos limites do livre-arbítrio.


Mas este texto não é uma análise crítica do controle social advindo dos meios de produção ou de seus impulsos irracionais.


Conversamos sobre a literalidade da vida em simulação virtual.


A ideia de que nossa realidade é uma simulação não é tão idiota quanto sermos usados como bateria.


Uma vez que certas premissas são adotadas como verdadeiras (e é difícil negá-las) a probabilidade de que vivemos em um universo real torna-se ínfima. Além de já ter sido explorada na literatura de ficção científica, a discussão foi aprofundada por Nick Bostrom, filósofo de Oxford e foi tema de debate entre renomados físicos e astrofísicos, dentre eles, o famoso Neil deGrasse Tayson.


A ideia, em si, é simples.


É aceitável a premissa de que com nossos avanços tecnológicos em algum momento será possível criar uma realidade virtual indistinguível de nossa realidade como conhecemos? Parece-me possível e, de certo modo, provável. Se compararmos o quanto caminhamos do Atari ao Resident Evil 7, em meros 40 anos, parece plausível outro grande salto em duzentos ou trezentos. Quiçá antes.


A segunda premissa diz respeito à inteligência artificial.


Conseguiremos, um dia, simular algo parecido com nossos pensamentos em um programa de computador? A dúvida e a irracionalidade podem ser traduzidas para 0 e 1? É outra premissa que me parece razoável. Estamos bem longe disso, mas já somos, por exemplo, capazes de criar inteligência artificial que aprende com seus próprios erros para se desenvolver, o que é conhecido como evolução neural. Uma simulação de nossa evolução genética.


Por fim, a última premissa é o interesse que teríamos em realizar uma simulação de um passado distante, tão distante que não havia mesmo tecnologia para que se realizassem essas simulações. E, novamente, a resposta parece positiva. Temos um emaranhado de jogos, séries e filmes que simulam um passado longínquo e temos certo prazer com essas coisas.


É possível que tal traço seja preservado em nós do amanhã, que podem realizar simulações que vão desde a era dos dinossauros ou da antiguidade até os dias atuais.


Os motivos para se fazer isso são variados. Desde pura e simples diversão (como fazemos hoje com The Sims, Civilization, Rome Total War), análise de comportamentos ou observação de como seria o mundo caso o bloco capitalista tivesse vencido a Guerra Fria.


Certo. Sei que até aqui a discussão parece bem exagerada. Mesmo que tomemos todas as afirmativas como verdadeiras, podemos ou não ser uma realidade virtual. Uma incerteza de 50%, como quase tudo metafísico que ponderamos.


Jogamos uma moeda para o alto e podemos ou não ser uma simulação, dependendo da face que ficará para cima.


O problema é o seguinte: Se, de fato, chegarmos a esse estágio humano e construirmos nossa simulação (e, para melhorar a brincadeira, imaginem que essas simulações podem ser produzidas em massa, como verdadeiros jogos de computador), é possível que dentro dela a humanidade também se desenvolva e, em determinado momento de sua história virtual, seja capaz de produzir sua própria civilização virtual. Essa, por sua vez, prosperará até alcançar um estágio evolutivo próximo ao de seu criador e produzirá a sua. E essa nova fará o mesmo. E o mesmo. E o mesmo.


O número de realidades virtuais tende, então, ao infinito. E nossa moeda com apenas duas faces se torna o maior dado de RPG do multiverso, com trilhões de possibilidades de simulação e de uma realidade verdadeira original. Jogamos o dado para cima e, agora, temos uma chance única em trilhões de sermos de fato a realidade original, que dará o ponta pé inicial nos construtos virtuais.


Como se isso não fosse o bastante, podemos somar uma certa tendência humana antropológica, teológica e filosófica de questionar a realidade concreta que nos cerca. É ancestral a ideia, quase instintiva, que vivemos em uma ilusão.



O primeiro contato com a teoria da simulação costuma gerar uma resposta cética e cínica, tão comum no mundo contemporâneo, associando a ideia a uma obra de ficção científica de quinta categoria.


Mas quanto mais pensamos nas premissas e na discussão probabilística, mais difícil se torna a refutação da simulação.


O que isso significa e como vai afetar a sua vida?


Eu sei lá. Não sou você.


Mas mesmo que você se renda à probabilidade estatística, é provável que não seja tão atingido pela teoria da simulação. Não existe, afinal, muita coisa que possamos fazer quanto a ela. A mim, essa teoria trouxe grande paz de espírito nos questionamentos metafísicos da vida e da vida após a morte.


No fim das contas, virtual ou não, essa é a realidade que possuímos. E o que podemos fazer é vive-la, e lutar para que se torne melhor para todo mundo.

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