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SONHOS EM TEMPO DE GUERRA – NGUGI WA THIONG'O [RESENHA]

(Esta é a resenha de um livro do Quênia, do desafio UM LIVRO DE CADA PAÍS DO MUNDO)





Sonhos em Tempo de Guerra é um livro de memórias do queniano Ngugi wa Thiong’o. A narrativa cobre a infância e os primeiros anos de adolescência do autor, entre meados das décadas de 1940 e de 1950, em uma área rural próxima a Nairóbi, hoje a capital do país e maior cidade do leste da África.


A “guerra” do título, apesar de grafada no singular, desdobra-se em diversos conflitos. Primeiro, cronologicamente, as memórias apagadas da participação queniana nas duas guerras mundiais e, em seguida, contemporaneamente aos relatos do autor, a Revolta dos Mau-Mau, movimento de insurgência contra a dominação britânica que resultou em uma guerra civil que perdurou por quase todos os anos 50.


Em um nível mais metafórico, a “guerra” tem outros contornos, como as disputas familiares decorrentes de uma sociedade poligâmica: a mãe do autor se separa do marido e deixa a comunidade, onde convivia com as outras três esposas e um total de vinte e quatro filhos para voltar a viver sob a proteção de seu pai, outro patriarca local, inaugurando novos conflitos. Mas, fundamentalmente, a “guerra” é o processo de descolonização.


A leitura é um mergulho no estranhamento. A começar pelos nomes de personagens no idioma local (a língua quicuio, creio eu) e seus fonemas impronunciáveis (como se fala um “i” ou um “u” com um til?). Na mesma linha do exotismo para o leitor brasileiro do século XXI estão os arranjos familiares. Por falta de paralelos culturais próximos, não é tão simples compreender as relações entre as coesposas e os filhos das demais, os laços que ligam os meio-irmãos entre si ou as obrigações que se estabelecem entre duas famílias inicialmente distintas quando um homem casa com uma viúva.


Ao mesmo tempo, não dá para esquecer que é o nosso mundo retratado naquelas páginas. O Quênia é real, assim como são reais e continuam parte do nosso imaginário popular figuras como Winston Churchill, Gandhi e a rainha Elizabeth II.


Ngugi wa Thiong’o nasceu em 1938 – no mesmo ano que meu avô –, ainda está vivo e segue escrevendo. Seu mundo de infância ainda é, em grande medida, o nosso mundo: as correntes cristãs que disputavam fiéis naquela sociedade não parecem tão diferentes das atuais e até a rainha da Inglaterra e soberana do Quênia no ano em que Ngugi se preparava para prestar exames de acesso ao ensino secundário é a mesma velhota que hoje encanta os mal acostumados com o republicanismo. Esse misto de familiaridade e de estranheza acaba por provocar uma certa sensação de desconforto, não tanto por diferenças culturais, mas porque há uma linha subjacente à narrativa que está sempre incomodando o leitor: o Quênia é uma colônia.


Estamos acostumados a considerar a Colônia como o marco zero da História do Brasil. Ainda que correntes historiográficas busquem revalorizar a história pré-cabralina, o fato é que os três séculos de dominação colonial e os amplos massacres e tentativas de apagamento da cultura indígena fazem com que sejamos uma sociedade moldada principalmente a partir da colonização. Sonhos em Tempo de Guerra relata uma outra configuração: as lembranças e formas culturais pré-coloniais ainda estão presentes, ao mesmo tempo em que se busca a superação da dominação estrangeira.


Ngugi wa Thiong’o viria a se tornar um dos nomes do chamado pensamento “decolonial”, mas suas memórias de infância trazem uma leitura de mundo ainda em construção. Povos que foram expulsos de suas terras ancestrais; proibição de escolas não tuteladas pela Administração Colonial; espaços rigidamente separados para colonos europeus, colonos indianos e a população africana originária; perseguição, tortura e assassinato de políticos nacionalistas; tudo isso nos revolta mais do que a Ngugi, que nasceu nesse mundo e para quem as injustiças e os mecanismos de dominação não são autoevidentes, mas frutos de um gradual processo de tomada de consciência que se desenvolve em paralelo aos ritos de passagem para a idade adulta e à dedicação aos estudos para cumprir a promessa feita à mãe de sempre dar o melhor de si – os sonhos de que o autor nunca abriu mão.


A África é um amontoado de países cujas fronteiras foram traçadas por régua e esquadros desde a Europa. Sonhos em Tempo de Guerra é mais um relato de dentro, mostrando as mazelas de uma terra em que o legado da cultura ocidental deixada pela colonização é, ao mesmo tempo, a ruína dos povos originários e a matéria-prima para a construção de um país.


(“Sonhos em Tempo de Guerra”. Autor: Ngugi wa Thiong’o. Editora: Biblioteca Azul. 272 páginas. Edição em português lançada em 2015)

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