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SUBMISSÃO – MICHEL HOUELLEBECQ [RESENHA]

Atualizado: Mai 4

(Esta é a resenha de um livro da França, do desafio UM LIVRO DE CADA PAÍS DO MUNDO)




Começo com um breve parêntese. Fiquei com vergonha ao constatar que já faz mais de um ano (!) que lancei o desafio da volta ao mundo literária. Publiquei duas resenhas e nunca mais apareci por aqui. Felizmente meus amigos não deixaram a peteca cair e, com essa agora, chegamos a sete resenhas publicadas. Fiz umas contas rápidas e concluí que, se continuarmos nesse ritmo, esse blog ainda terá conteúdo pelos próximos 30 anos! A sorte é toda de vocês, caros leitores.


Mas vamos ao que interessa. Chegamos agora à França.


A literatura francesa é repleta de clássicos e deve ser a mais influente do mundo nos últimos séculos. Mas nossa jornada literária não tem compromisso com os clássicos, com as grandes influências ou com as incontestáveis representações do ethos de um povo, senão com algo muito mais importante: o mero capricho destes humildes resenhistas.


Escolhi, aqui, um livro recente e que causou uma imensa polêmica na França. E pensar que um livro – e, mais ainda, um livro de ficção – tem capacidade de causar uma imensa polêmica dá ideia de que a literatura recebe um tratamento bem diferente no debate público francês.


É claro que ajudou o fato de o livro em questão ter sido escrito por um autor premiado, ter contado com uma forte divulgação na mídia e, acima de tudo, ter seu lançamento oficial nas livrarias inicialmente agendado para o fatídico 07 de janeiro de 2015, dia do atentado contra o jornal satírico Charlie Hebdo, que resultou em 12 mortes.


Michel Houellebecq escreve um romance de antecipação com temática política, descreve uma França do ano de 2022 em que o segundo turno das eleições presidenciais são disputadas entre o (fictício) partido da Fraternidade Muçulmana e a (verdadeira) Frente Nacional e imagina uma ampla composição de forças e projetos políticos que, para evitar a ascensão da extrema-direita raivosa, acaba por entregar o poder ao grupo muçulmano supostamente moderado.


A disputa política, então, seria desviada do eixo tradicional esquerda-direita para o confronto entre identitários – xenófobos antissemitas que buscam a limpeza étnica da Europa – e fanáticos muçulmanos – com um projeto bem pensando e organizado de recriar um Império Romano no continente, agora sob a ordem da Charia.


Com os muçulmanos no poder, são imediatamente abandonados a educação laica e universal, as estruturas de um estado social e os direitos das mulheres. “Submissão” nada mais é do que a tradução literal da palavra árabe "Islã".


O curioso é que assistimos às mudanças sociais e políticas a partir da jornada do narrador François, um professor de literatura com tendências depressivas e pouco interessado em política. Assim, muito dos detalhes do contexto político amplo é apenas tangenciado, como os confrontos armados entre grupos rivais no período pré-eleitoral e o papel da oposição após a chegada dos muçulmanos ao poder.


O livro foi recebido, por grupos mais à direita, como uma “sátira política genial” e, por aqueles mais à esquerda, como “lixo literário” ou “propaganda neofascista”. Dá para notar que não é exatamente um convite à moderação.


De minha parte, eu diria apenas que para nós, tão distantes da questão muçulmana na Europa, a leitura tem momentos divertidos e traz algumas informações importantes.


O melhor da obra está na construção do narrador protagonista, um personagem profundo que, desde sua relação com seu objeto de estudo, Huysman – pelo que pesquisei, um escritor decadente do final do século XIX convertido ao catolicismo –, até seu cinismo, voltado principalmente para o sexo e a sociedade, parece querer representar todos nós, uma geração perdida em um tempo de transição.


No mais, o enredo é cheio de amarras pouco convincentes. François faz uma estranha e brevíssima amizade com um agente do setor de inteligência francês que serve apenas, e de forma irritantemente óbvia, para fornecer aos leitores informações “mastigadas” sobre movimentos estratégicos mais amplos dos partidos políticos que, em condições normais, estariam fora do interesse e da própria capacidade analítica do personagem protagonista.


Também a rápida e radical transformação das estruturas políticas francesas logo após as eleições é pouco crível. Afinal, que sistema de governo é esse em que a oposição fica de mãos completamente atadas? Nós, brasileiros, sabemos muito bem, ao menos desde 2014, que eleições altamente polarizadas conduzem mais facilmente ao caos político e à quase ingovernabilidade.


Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”, é uma frase que circula a internet e que Freud, na verdade, nunca disse. O enredo de Submissão não traz nada factível sobre o cenário político francês dos próximos anos, mas as reações que provocou e o seu sucesso editorial (chegou a ser o livro mais vendido não apenas na França, mas também na Alemanha e na Itália) revela muito dos medos e apreensões que estão em jogo na atual política europeia.


(“Submissão”. Autor: Michel Houellebecq. Editora: Alfaguara. 212 páginas. Edição em português lançada em 2015)


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