• M

VOZES DE TCHERNÓBIL – SVETLANA ALEXIEVITCH [RESENHA]

(Esta é a resenha de um livro da Bielorrússia, do desafio UM LIVRO DE CADA PAÍS DO MUNDO)



A Academia Sueca, ao entregar o Prêmio Nobel de Literatura de 2015 à jornalista bielorrussa Svetlana Alexievitch justificou a premiação por “seus escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo”.


De fato, polifonia parece ser a palavra-chave de Vozes de Tchernóbil. O livro está na fronteira entre a literatura e o jornalismo, é uma grande compilação de centenas de depoimentos de bielorrussos que de alguma forma sofreram as consequências do acidente nuclear de Tchernóbil em 1986.


A introdução traz algumas informações importantes para aqueles que, como eu, sofrem de profunda ignorância sobre a geografia e a história recente do leste europeu: embora a Usina de Tchernóbil se localizasse na Ucrânia, foi a vizinha Bielorrússia, cuja fronteira fica a poucos quilômetros, que sofreu as piores consequências. A Bielorrússia recebeu 70% dos elementos radioativos lançados na atmosfera pela explosão e teve 23% do seu território contaminado, contra 4,8% da Ucrânia.


Mas a intenção da obra passa longe dos detalhes técnicos ou da recriação do acidente. O objetivo da autora é dar voz às vítimas e, assim, cada capítulo traz o relato em primeira pessoa de um ou mais envolvidos. A polifonia traz um certo tédio e a sensação de que pouco ou nada se avança nos relatos, mas há de se reconhecer que essa inventiva forma de escrita revela a multiplicidade das experiências possíveis em um evento dessa natureza.


Estão lá os “liquidadores” que trabalhavam a poucos metros do núcleo radioativo movidos por ignorância, patriotismo e vodca; as mulheres que deram à luz filhos deformados porque não se afastaram dos caixões radioativos dos maridos; as avós que ignoraram os avisos e voltaram a viver na zona proibida; o dirigente do partido comunista incumbido de mentir para tranquilizar a população; o cientista que reflete sobre o sanduíche contaminado que aceitou de uma velha camponesa e do qual não se arrepende mesmo tendo descoberto o câncer alguns meses depois; os evacuados vistos em todos os lugares como ameaças ambulantes; as crianças que crescem caladas sob o signo da doença, etc.


O livro me fez entender Tchernóbil para além dos documentários do Discovery Channel ou de monstros mutantes de filmes de terror. A contaminação radioativa em larga escala era algo até então inédito para a humanidade. De repente, havia uma ameaça invisível contra a qual nossa evolução biológica não tinha criado nenhum mecanismo de defesa. Podia matar em questão de horas e também podia se acumular no corpo e ser passada de geração em geração. É, de certa forma, ubíqua, mas também concentrada em alguns objetos perigosos: as roupas do varal, as hortaliças crescendo no quintal, a água, o animal de estimação, o brinquedo da criança, às vezes a própria criança, tudo contaminado e terrivelmente mortal pelos próximos milhares de anos. Junto do inaudito horror cósmico, estão também os sentimentos que nos são mais próximos: alguém que perde um membro da família, outro que desafia o perigo para viver na zona contaminada, um terceiro que saqueia casas abandonadas para vender bugigangas radioativas a algum desavisado.


Tchernóbil foi um evento que estendeu os limites da experiência humana, vale a pena conhecer um pouco mais a respeito.


("Vozes de Tchernóbil. A história oral do desastre nuclear". Autora: Svetlana Alexievitch. Editora: Companhia das Letras. 384 páginas. Edição em português lançada em 2016)



0 visualização

© 2023 por Amante de Livros. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • White Facebook Icon
  • White Twitter Icon
  • Branco Ícone Google+