• Leandro Barreiros

Simbolismo e Subtexto nas obras de Yoshihiro Togashi (Parte II)

Atualizado: Jun 7



Hunter x Hunter merece um post inteiro de dedicação. Acredito que ele esteja para os mangás shonen o que Watchmen esteve para os quadrinhos. É uma obra genial, que funciona a partir da desconstrução de clichês do gênero. Por esse motivo, ela causará mais impacto em quem está acostumado com animes, do mesmo modo que a genialidade de Watchmen é mais sensível a quem participa de uma cultura do gênero de quadrinhos, o que possibilita a desconstrução dessa cultura.


Dito isso, recomendaria HxH para qualquer um que já tenha ou não visto uma animação japonesa onde tudo se resolve na porrada.


Vou listar rapidamente algumas coisas que são referenciadas ou trabalhadas em HxH para dar uma dimensão da obra:


  • Desigualdade Social e Extrema pobreza

  • Coréia do Norte

  • Quentin Tarantino (Cães de Aluguel)

  • Abandono e abuso infantil

  • As bombas de Hiroshima e Nagasaki

  • MMORPG

  • A tendência destrutiva da natureza humana

  • Jogo de Queimada

  • Origens Sociais da Criminalidade

  • Humanização do Criminoso

  • O perigo dos juros compostos

Bom, acho que isso é o suficiente para mostrar o quão plural é a obra de Togashi.


Todos esses elementos são bem costurados na obra, e, como o complexo do Hiei, representado na posição em pé no corrimão do navio, estão presentes de maneira mais ou menos simbólica.


Para exemplificar, trarei outro subtexto que sustenta uma discussão rica, trazida pelo Togashi. Esse diz respeito à relação entre um dos protagonistas, Killua, sua irmã Alluka e o restante de sua família, os Zoldyck.



Killua Zoldyck Alluka Zoldyck




Fotografia da Família Zoldyck (Alluka distante no fundo)


Em linhas gerais, Killua é um rapaz de 14 anos (no início da história tem 11) que pertence a uma família de assassinos. A relação da família é bem conturbada. Por conta do negócio da família, as crianças recebem um severo treinamento, que inclui a ingestão de veneno e torturas esporádicas para aprender a lidar com a dor.

Mesmo neste ambiente, há espaço de sobra para sentimentos familiares de amor e respeito. Claro que eles são mais ou menos influenciados pelo comportamento tóxico da família.


Por exemplo, em determinado momento da história, Killua ameaça e coloca em risco a vida de sua mãe. E, ao invés de triste, a matriarca chora de felicidade pois seu filhinho estaria crescendo.









Kikyo Zoldyck (mãe de Killua)


De todo modo, escolhi falar do caso de Alluka e de sua relação com a família.

Alluka é a filha mais jovem dos Zolldyck e, por motivos que não vou aprofundar, é vista de maneira bastante suspeita por quase todos os seus membros, exceto por Killua.


Alluka possui uma habilidade indescritivelmente poderosa e perigosa e, por isso, foi trancafiada por seus familiares em uma sala cercada por portões de aço e pelo o que vocês possam imaginar do melhor da ficção científica.


A família dá brinquedos, comida, e tudo o mais, mas a liberdade de Alluka, bem como qualquer relação amorosa, foi retirada. Ela é, para todos os fins, uma prisioneira.



Bom, como a primeira parte deste artigo, a minha discussão aqui é sobre a capacidade do Togashi de desenvolver subtextos a partir de elementos narrativos discretos. Em YuYu Hakusho, utilizei o exemplo da imagem de Hiei. Aqui, partiremos para alguns diálogos. Especificamente em uma contraposição das falas de Killua e do restante dos membros da família ao falarem sobre Alluka com outras pessoas, em diferentes momentos da história.

“Há na verdade outro pequeno irmão na família Zoldyck, e eu quero me livrar dele”

Illumi Zoldyck


“Eu quero ver Alluka. Preciso do poder dela”

Killua


“Quero que você o mate. Ele não tem nenhuma habilidade de combate, então não precisa se preocupar com isso”

Illumi Zoldyck


“Ela é muito boa destruindo algo, mas quando é para consertar, precisa tocar no alvo”

Killua


“Ele gosta de pedir coisas. É só falar que não”

Milluki Zoldick


“Como pude deixar minha pequena irmã desse jeito? Eu a conheço melhor do que qualquer um. “

Killua


Esses fragmentos de fala causaram-me muita estranheza na primeira vez que assisti a série. Talvez vocês tenham tido a mesma impressão que eu: houve algum erro na escrita.


Sempre que Killua se refere à Alluka, ele a trata com pronomes e palavras femininas. Quando qualquer outro membro da família o faz, utiliza termos masculinos.

De início, achei que havia um erro na tradução do japonês, mas algumas pesquisas indicaram que no original a distinção também acontecia de maneira clara. Togashi fora cuidadoso na escolha das palavras e, em pouco tempo, a comunidade de fãs entendeu o que se passava: Alluka é transgênero.


Apesar de ter nascido em um corpo de menino, sempre agiu e se identificou com o gênero feminino. Sendo Killua o único membro da família que demonstra compaixão e empatia com a irmã, apenas ele utiliza termos femininos para defini-la. Enquanto os outros membros da família Zoldyck têm um distanciamento emocional da criança, abordam-na de maneira mais fria e distante, apegando-se apenas ao seu aspecto biológico.

Flexão de gênero. Apenas isso.


Não há bandeiras e discussões sobre o assunto. Togashi não explicita o subtexto (aquilo que está escondido na narrativa) para além desses pequenos fragmentos de diálogo, separados aqui e ali ao longo do anime e mangá.


Ao trocar as palavras de feminino para o masculino, sem mastigar toda a questão, o autor consegue de maneira efetiva ressaltar as relações de Alluka com o irmão e com o restante da família. Togashi aborda a questão da empatia, da compaixão e da aceitação para com pessoas que lidam com problemas de identidade de maneira brilhante, sem colocar uma bandeira por trás de sua discussão e cobrar comportamentos. Seu subtexto, por não ser declarado, obriga a reflexão. Ou não. Porque é possível passar batido por esse detalhe (como na imagem do Hiei) e, em outro momento da vida, ao rever a obra, entender as proposições do autor.


Enfim, Yoshihiro Togashi tem essa invejável habilidade de adicionar camadas a suas obras de forma simbólica ou subtextual. Essas camadas versam tanto sobre discussões sociais, culturais e políticas, bem como ao próprio universo narrativo em si.


Portanto, deixo aqui minha declaração de admiração pelo autor e a recomendação para quem quiser assistir um desenho com porradas e certa profundidade.


Obs1.: Foram lançadas duas versões do anime. Uma em 99, outra em 2011. A animação de 2011 é belíssima e infinitamente superior a de 99, mas cometeu um grave pecado no primeiro episódio. Então, se quiser dar uma chance à série, sugiro que assista o 1 episódio de 99 e então passe para a animação de 2011.


Obs2.: O primeiro arco da história tem o filtro da perspectiva de Gon, uma criança de 11 anos de idade super otimista. Por isso, há uma atmosfera mais infantilizada, e aparentemente errada, porque você assiste um monte de gente morrendo e a saga perpetua uma certa alegria. Mas não tem erro. Com o tempo você percebe que esse clima é mais por conta do pov do protagonista.


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